Place Branding – como usar
outubro 5, 2012 by isotipo.labs · Leave a Comment
Fui convidado pelo Tio Flávio, coordernador do curso de Pós-Graduação da PUC-MG, a escever um pequeno artigo sobre do que se trata Place Branding, afinal de contas. O texto foi publicado em seu blog, que reproduzo logo abaixo.
—
Place branding: conhecendo e repensando a identidade de lugares públicos
De tempos em tempos novos temas relativos à comunicação surgem despertando interesses distintos, seja pelo seu ‘espírito do tempo’ ou pela relevância de sua prática. Um dos assuntos em questão é o Place Branding, uma transdisciplina que vem ajudando as cidades, estados e países a se posicionarem nesse concorrido e complexo século XXI. Para falar sobre este assunto, ninguém melhor que o GUSTAVO SANTOS*, um especialista e estudioso dos temas que ajudam a entender os conceitos que permeiam o Place Branding.
“Tema controverso e muitas vezes confundido com propaganda oficial – talvez pela sua equivocada aplicação pelos governos – Place Branding pode ser uma importante ferramenta de desenvolvimento regional e de engajamento das suas populações.
No Brasil, com dois eventos internacionais de grande porte a caminho, o assunto, de uma forma ou de outra, começa a entrar em pauta tanto no mercado quanto nas esferas mais altas dos governos, mas ainda muito pouco é praticado em sua essência. No entanto, o que de fato é esse tal de Place Branding? Para que serve e como usar?
Place Branding, em uma análise superficial, nada mais é do que a transposição das técnicas, ferramentas e metodologias aplicadas à construção e manutenção de marcas de produtos e serviços do mercado de consumo a países, estados, regiões, cidades, bairros e até mesmo uma rua ou uma praça.
Mas, com um olhar um pouco mais atento, pode-se percebe que o objeto de trabalho – lugares públicos – envolve questões bem mais complexas do que o universo bastante “controlável” das marcas de consumo.
Chega-se, então à conclusão que apenas as ferramentas utilizadas no branding não são suficientes para lidar com esse caldeirão de culturas em constantes movimentos que são os lugares públicos pois, afinal, envolve pessoas com suas identidades, valores, distintos interesses, demandas, necessidades, etc.
As tradicionais disciplinas como Antropologia Cultural, Sociologia, Urbanismo, Ciências Políticas devem ser consideradas em um esforço de Place Branding, criando uma verdadeira e nova transdisciplina, na qual não se sabe ao certo onde uma começa e a outra termina.
E o Branding nessa história toda? Simples. É ele, junto com outra ferramenta que possui uma importante visão holística de projeto – o Design Estratégico – é que vai moldar, articular e dar sentido e significado a todas essas questões quando se trata em identificar ou reposicionar uma região, seja para a atração de turistas e de investimentos, exportação de produtos locais ou simplesmente para criar o fundamental, mas praticamente esquecido em diversas regiões, sentimento de pertencimento em sua sociedade.
Em resumo, um projeto de Place Branding que não contempla a complexidade humana de uma região e simplesmente adapta as mesmas metodologias do mercado de consumo para se vender como estância de turismo ou qualquer outro setor sem coerência com a identidade cultural não passa de uma efêmera e irrelevante propaganda.”
–
O Blog do Tio Flávio é publicado às segundas e quintas-feiras.
* Gustavo Santos é designer com formação e especialização em Relações Internacionais, Sociologia e Antropologia Cultural pela Universidade Belas Artes de São Paulo. Desenvolve projetos de comunicação e design há mais de 20 anos, com passagem pelas principais agências de design e publicidade do Brasil. Publicou o livro “Nation Branding: Construindo a imagem das Nações”. Teve seus textos e trabalhos publicados e exibidos em festivais e mostras no Brasil, Colômbia, Estados Unidos, França, Holanda e Rússia. Atualmente é sócio e diretor de criação na Polar Studio, empresa de Design Estratégico e pesquisador na isotipo.labs, thinktank de pesquisa e fomento em temas relativos ao Place Branding e Identidade Cultural. Ministra aulas e palestras sobre temas como Place Branding, Identidade Cultural e Desenvolvimento Territorial. Esteve em BH/MG a convite da CoolHow e em outubro irá palestrar no TEDxMauá sobre Design e Cidades.
Renascendo
outubro 5, 2012 by isotipo.labs · Leave a Comment
Muita coisa aconteceu desde o último post, um cartão-postal visual do músico/designer mineiro Fabiano Fonseca.
Aos poucos vou colocando a vida em ordem e, os posts em dia !
Todos os olhos
fevereiro 15, 2011 by isotipo.labs · Leave a Comment
Dizem por aí que agora é a vez do Brasil.
Nunca antes na história desse país tanto se falou e se acreditou em nós. Pelo menos através de outros olhos, os dos estrangeiros. Apesar de abismos sociais dignos de um 8º mundo e absurdos saídos de uma ficção científica qualquer, o Brasil parece estar tentando botar a casa em ordem. E, de certa forma, isso está reverberando por outras bandas. Talvez seja pela estagnação européia ou pela crise interminável nos Estados Unidos, mas de fato o Brasil é o novo eldorado dos colonizadores 2.0. Um interesse sem precedentes por nós, meros sul-americanos sem pecados, parece dominar o chamado mundo sem fronteiras. Uma espécie de pulga atrás da orelha, se perguntando: afinal de contas, o que acontece lá embaixo da linha do equador?
Inevitavelmente o Mundial de Futebol de 2014 e as Olimpíadas de 2016, além de outros detalhes sem importância, são os grandes responsáveis pelo nosso protagonismo mundial, mas também sabemos que eventos esportivos, apesar de globais, sozinhos não são o suficientes para manter uma audiência por muito tempo. Precisa ter lastro, algo que mantenha uma certa relevância. Não sabemos ainda se nossa ribalta é efêmera, mas existe algo em nosso ar e em nossa água que começa a fazer sentido além-mar. A Wallpaper celebra a nossa cultura, nosso design e nossas cidades. A Monocle festeja nossa diplomacia. O Le Monde desvenda nossa história. A The Economist preveu nossa decolada e nosso protagonismo numa América Latina cada vez mais forte, apesar de algumas democracias frágeis. Enfim, todos falam e todos querem o Brasil. Mas o que querem todos? Um pedaço do bolo, claro. Não é novidade que o Brasil de 2011 realmente deu alguns passos em direção à algo maior, ao contrário do resto do planeta, exceto a China, obviamente. O indíce de confiança aumentou e o Brasil, apesar de tudo, se apresenta como um país um pouco mais sério. E seriedade – mesmo na mais profunda alegria - é o mínimo que se espera de qualquer região que pretende construir uma imagem de relevância.
Me lembro de uma palestra onde alguém disse que o Brasil sempre foi conhecido como o país dos 3 S’s: Samba, Sex, Soccer. Desnecessária a tradução. Dizem que a diretriz do Governo Federal para o Ministério das Relações Exteriores e para a APEX – orgãos responsáveis pela promoção da imagem nacional no exterior -, para a construção de nossa nova imagem é à partir do anagrama TOTAL: Tecnologia, Organização, Trabalho, Autenticidade e Lei. Dizem também que ordem não combina com progresso. Mas, num momento raro de ufanismo e otimismo, quem sabe realmente não chegaremos lá? Nos resta saber a nós, brasileiros, onde é lá.
Bom, alguém acredita que já estamos lá. Os pragmáticos ingleses do Financial Times chegaram primeiro e já estão contando para todos os lados que agora o lugar é aqui. Nada de China, Índia e Rússia, RIC’s que sem o nosso B não tem sonoridade nem bossa alguma. Com módicos £4,000 (libras!) anuais você, investidor internacional, pode saber tudo o que a baiana tem e aprender o caminho das pedras para faturar alguns milhões por aqui. Lançado em janeiro de 2011, Brazil Confidential é o novo serviço da Financial Times que consiste em uma asisnatura anual (aquelas libras na linha anterior) para ter informações privilegiadas, análises e insights sobre – segunda a publicação – o mais excitante mercado emergente do mundo.
Já em dezembro de 2010, nossos irmãos da América do Norte começaram a se incomodar com o nosso braulho. O celebrado 60 Minutes da CBS dedicou alguns bons minutos de sua programação à tentar descobrir se somos um país sério pois, afinal de contas – segundo eles – tivemos o político mais popular do mundo e estamos vertiginosamente em direção a ser a 5ª maior potência econômica mundial. E para não ficar no achismo, Eike Batista, Eduardo Bueno – o historiador – e Lula foram os escolhidos para contar essa pequena história de uma revolução econômica e social em curso, que levará o Brasil à outros níveis.
Mais uma vez somos a cereja do bolo. Uma horda estrangeira está chegando, buscando insacialvelmente um pedaço do nosso quitute econômico. Cabe a nós divdir esse bolo antes da chegada e, quem sabe, deixar a cereja para eles.
A hora de pensar, construir e fazer um país sério é agora. Um país sério, mas sem esquecer o carnaval, o futebol e o samba afinal, Deus é brasileiro.
Abaixo o vídeo do 60 Minutes sobre a epopéia brasileira.
Pripyat, uma trilha sonora imaginada
janeiro 5, 2011 by isotipo.labs · 3 Comments
Por volta de 2002, numa internet onde as redes sociais engatinhavam e as informações tinham que ser de fato garimpadas, caí meio que por acaso no site da fotógrafa ucrâniana Elena Filatova, que tinha com hobbie viajar de moto, sozinha, por áreas abandonadas e esquecidas de seu país, fotografando o que via e publicando em seu site. Um desses lugares foi Pripyat, uma pequena cidade construída em 1970 ao largo da usina de Chernobyl. Na época em que a cidade foi retratada pela fotógrafa, Pripyat era um lugar esquecido e abandonado, devido ao enorme índice de radiação existente na região, localizada dentro de uma área chamada zona de alienação pelo governo ucraniano. Ou seja, uma cidade fantasma.
Ao ver as fotos de Elena, fui absorvido por uma sensação estranha, uma mistura de curiosidade e tristeza por aquelas imagens silenciosas e repletas de significados contraditórios.
A União Soviética sempre me cativou de alguma forma. Muito menos pelo seu sistema político e ideológico mas sim pela sua estética, a concepção e construção de suas imagens e, principalmente, pelo seu lado humano não divulgado, quase que desconhecido mas bastante imaginado. Aquela intransponível barreira cultural, as especulações feitas pelos ocidentais e, principalmente, pelo seu legado histórico fez de mim um grande observador daquela região. Os erros cometidos durante sua existência como uma república socialista tinha um certo charme mambembe, apesar de nunca ignorar suas consequências políticas, humanas e sociais. Mas era inevitável o fascínio que todo aquele projeto de nação, de sociedade e, por que não, de uma nova ordem mundial que era emanada, mesmo dentro de uma distopia e sempre com a consciência de sua vulnerabilidade, de sua falibilidade como algo factível.
Mas imagens de Elena eram diferentes. Apesar de uma sombria beleza, revelou, 16 anos depois, o fracasso de uma utopia, do tal projeto de uma nova sociedade baseada num sistema natimorto e mequetrefe que era o comunismo ou, para ser um pouco mais exato, o tal do socialismo real. Até então, niguém tinha ido à aquela região, onde as radiações ainda são extremamente maléficas a qualquer ser vivo e teve seu solo e água condenados por mais de 2500 anos.
Durante seus 16 anos de existência, Pripyat foi a menina dos olhos do sistema soviético. Construída no meio do nada para servir de moradia para os funcionários da usina e de lazer e educação para seus filhos e familiares, a pequena cidade era o modelo a ser seguido e aplicado em todas as cidades socialistas até então. Era a perfeitra aplicação da doutrina urbanística comunista: moradia, saúde, trabalho, educação e lazer igualitária, uma cidade pensada para as pessoas, com amplos parques, áreas de lazer, escolas. Ruas largas, extremamente floridas e grandes edifícios de moradia coletiva foram construídos. Era o oposto daquela imagem das cidades cinzentas, escuras e frias que se tinha na época. Muitos soviéticos aspiravam morar em Pripyat. Era o degrau máximo daquela sociedade, que deveria ser expandida para todas as cidades que faziam parte do bloco.
Mas em 1986 tudo isso mudou. Localizada apenas à 25km de Chenobyl, a cidade foi a primeira a ser afetada após a explosão de um dos reatores da usina. Como todo o acidente foi encoberto pelo governo soviético, a população de Pripyat só foi evacuada da área de risco dois dias depois da catástrofe. Mas o estrago já estava feito. Quase toda a população de cerca de 50.000 pessoas foi afetada de alguma forma pela radiação. As que sobreviveram foram obrigadas a abandonar todos seus pertences e suas vidas. Foram embora apenas com a roupa do corpo. As imagens de Elena mostram esse exato momento, como se aquele lugar tivesse sido congelado pelo tempo: a mesa de café posta, as bonecas abandonadas nas casas, os livros escolares abertos nas salas de aula, etc.
Hoje Pripyat virou um improvável mas concorrido roteiro turístico. Vários pacotes – incentivados pelo governo da Ucrânia – permitem passar horas e até dias na região, visitar os edifícios tomados pela insistente vegetação e tentar ouvir o ensurdecedor silêncio que deve reinar por aquelas bandas. Um repórter da Revista Trip fez um relato interessante de um desses roteiros.
Ao ver pela primeira vez as imagens de Pripyat, um filme imaginário me veio à cabeça: como eram e como viviam essas pessoas? Qual eram suas rotinas? O que faziam antes do acidente e como se comportaram ao saber que teriam que abandonar tudo, sem saber porque e para onde?
O filme ficou só na vontade, mas o silêncio das imagens de Elena provocou um exercício de pensar qual seria a trilha sonora desse filme imaginário. Vasculhando os bits do passado, me lembrei que de fato tinha feito essa trilha. Abaixo disponibilizei a trilha completa – cerca de 1h10m - e a respectiva ordem das músicas.
As músicas foram organizadas em uma ordem imaginária dos acontecimentos: a inauguração da cidade e a euforia da promessa de uma organização social moderna e vibrante; a vida cotidiana de seus moradores, o passeio no parque, a saída para o trabalho, a ída para a escola, as festas e os bailes nos bares e clubes; o acidente, a sensação de algo estranho acontecendo, a desinformação geral e a angústia pelo destino desconhecido; o caos geral, a evacuação silenciosa e a vida deixada para trás e, por fim, o abandono, a geração quase espontânea de uma cidade-fantasma aos 16 anos, os pertences pessoais à espera de seus donos e a natureza fazendo seu papel de, aos poucos, eliminar um sonho constrúido mas fadado ao fracasso.
Enfim, um livre exercício de imaginar como seria a trilha sonora de um dos momentos mais controversos da história da humanidade.
Abaixo, uma seleção das imagens de Elena Filatova que inspiraram essa seleção musical. Recomendo ver as imagens enquanto se escuta a trilha para tentar “sonorizar” os ambientes retratados.
As fotos que estão publicadas nesse post foram escolhidas mais pelo impacto inicial que tive ao vê-las em 2002 e pelo seu ineditismo como registro fotográfico do que pela qualidade técnica ou artística. Para ver fotos atuais e de melhor qualidade da cidade de Pripyat e da Usina de Chernobyl, clique aqui.
Audio clip: Adobe Flash Player (version 9 or above) is required to play this audio clip. Download the latest version here. You also need to have JavaScript enabled in your browser.
–
Playlist:
01. Dimitri Shostakovich / Chamber Symphony for Strings, OP. 110A – Allegro Molto (Attacca)
02. Threnody Ensemble / Tharoman (Former Valerie White) Part II
03. The Cinematic Orchestra / All That You Give
04. Henry Cowell / II High Color
05. Maurice Pavel / Gaspard de la Nuit (Le Gibet)
06. Dimitri Shostakovich / Chamber Symphony for Strings, OP 110A – Largo
07. Harold Budd with Zeitgeist / Pantomime
08. Karlheinz Stockhausen / 53 20
09. Nathaniel Merriweather / Strokers Ace
10. Harold Budd with Zeitgeist / Breathless
11. Henry Cowell / Hero Sun
12. Morton Feldman / Only
13. Harold Budd / The Room (Fila Brazilla Mix)
14. Karlheinz Stockhausen / 29 53
15. Henry Cowell / Exulation
16. Morton Feldman / Voice, Violin, Piano
17. John Cage / In the Name of the Holocaust
--
Foto: Vivo (Ben)
—-
As fotos publicadas nesse post são de autoria de Elena Filatova, exceto às imagens de arquivo e as devidamente creditadas aos seus autores.
Como pensar design além do design, uma palestra
novembro 3, 2010 by isotipo.labs · Leave a Comment
Em setembro de 2010 fui convidado a ministrar uma palestra para os alunos do último período do lendário curso de design gráfico na Universidade Estadual de Minas Gerais a convite do professor Cláudio Santos. Essa palestra fez parte de uma série de conversas entre profissionais do mercado com os alunos da disciplina de Design e Novas Mídias, onde o foco era mais trocar experiências distintas da prática do design do que mostrar novas teorias ou algo do tipo. Como a minha trajetória de designer era, de certa forma, errática do ponto de vista tradicional, a conversa seria interessante pois poderia apresentar aos alunos, através da minha história, as enormes possibilidades que o design oferece além do clássico destino da disciplina de dar forma à função.
Foram quase 6 horas de conversa, dividida entre dois turnos, onde apresentei desde da minha iniciação como um “designer informal”, até questionamentos que venho feito a tempos a partir da ideia da commoditização do deisgn, onde o uso de ferramentas e softwares parecem ser mais importantes para uma grande maioria dos novos designers do que simplesmente o parar e pensar qual o objetivo, o desígnio da profissão.
Durante muito tempo venho questionando o design puro e simples, subjulgado como uma disciplina secundária, engolida e canibalizada pelas grandes agências de comunicação que a utiliza mais como uma ferramenta de replicação de campanhas publicitárias do que objeto fundamental na construção e consolidação de uma ideia, e até dos próprios designers, que devido a um fordismo sem precedentes do mercado, acabam sendo obrigados a se especializarem em softwares de 3D ou de edição de imagens, abandonando assim sua função primária de pensador e criador de algo resistente ao tempo e relevante para as marcas ou até mesmo para a sociedade como um todo. Claro que existem vários estúdios de design – aqui mesmo no Brasil – onde essa antropofagia desproporcional não é utilizada, mas mesmo assim um projeto de design puro e simples ainda tem seu valor pouco reconhecido, tanto financeiramente quanto como peça fundamental para a construção de qualquer projeto definitivo.
Com essas provocações iniciais, tentei apresentar meu início como um designer “informal” e de como sempre insisti em olhar e sentir a profissão por diversos outros meios, além dessa nova história que cada vez mais me aprofundo e me apaixono que é construção da imagem de países, cidades e lugares através de um design mais pensador e planejador do que apenas executor.
Abaixo disponibilizei o PDF do keynote apresentado para os alunos. Talvez ele sozinho não funcione para contar tudo aquilo que conversamos por lá, mas ilustra bem o que construí no meu imaginário como ‘designer’, desde a minha iniciação no exercício de observar – o que considero a ferramenta mais importante para quem quiser se atrever a submergir na profissão – através da música e seus fabulosos vinis, à inevitável influência do lugar de onde você nasceu na construção do seu imaginário visual e filosófico, contando um pouco a minha passagem pelas “grandes” agências de propaganda onde a promessa de trabalhar com design se transformou em uma produção em massa acéfala, não esquecendo as rupturas e pausas compulsórias (e necessárias) da vida, a alguns exemplos de trabalhos executados durante esse período até a descoberta de novas possibilidades e a reinvenção da profissão através de novos conceitos e formatos de trabalho, conciliando – principalmente – pensamento e estratégia com pessoas de disciplinas distintas para construir projetos cada vez mais concisos e resistente ao implacável tempo.
É bom deixar claro que boa parte das peças mostradas nessa apresentação cumprem o simples papel de ilustrar um argumento ou discurso pertinente ao assunto em questão do que colocá-los como de minha autoria. Muitos desses trabalhos apresentados foram feitos em equipes da qual fiz parte e, alguns, sequer teve alguma participação minha, mas de uma forma ou outra estive envolvido.
Muitos desses trabalhos os apresento mais por representar tudo aquilo que NÃO acredito como um trabalho de design do que como uma referência ou um portfólio de trabalho.
Nossa história contada pelos outros
outubro 8, 2010 by isotipo.labs · Leave a Comment
Jano / Rio de Jano (divulgação)

Pense numa situação cotidiana: o café da manhã diário na padaria da esquina. Na mesa ao lado, dois italianos, em um ítalo-português novelesco, discutem sobre coisas trivais da vida, tal como a renovação do passaporte de um deles. Apesar de ser impossível não ouvir a conversa alheia – devido ao volume da voz – tentava prestar atenção em coisas mais importantes como, por exemplo, a quantidade de açúcar em meu café. Mas não dava. O tom da conversa era muito alto. Italianos, diriam alguns.
Mas a conversa esquenta quando eles percebem que na próxima segunda-feira, dia 11 de outubro, é meio-feriado, – a famosa emenda - já que o dia 12 é recesso nacional. Festa católica, dia da Nossa Senhora Aparecida, a padroeira do Brasil. Diante da constatação de uma segunda-feira inexistente, um deles afirma categoricamente: segunda é feriado para quem é vagabundo. Na sequência, sem pestanejar, o segundo emplaca: ma qui è un país di vagabunti! Assim mesmo, na lata, em alto e bom som e num italiano digno de Tony Ramos.
Então, longe de qualquer juízo de valor, essa simples constatação de um estrangeiro em terras brasileiras, rodeados de brasileiros, dita de forma tão assertiva, nos mostra um lado interessante que mesmo esse Brasil tão celebrado como o novo eldorado de uma Europa estagnada, que estampa semana sim semana não a capa da influente The Economist, temos um pequeno e considerável problema que nos persegue à alguns séculos: como somos vistos por nossos interlocutores. E como não controlamos essa percepção.
A declaração, preenchida de preconceitos não-pensados mas solidificaos no imagninário deste italiano comum, representa essa não-história contada por nós, além, é claro, da ajuda dos indefectíveis clichês e esteriótipos que permeiam o insconsciente coletivo mundial. Antes de questionar se de fato somos vagabundos ou então assumir de uma vez por todas essa nossa verve meio joie de vivre, ou até mesmo como disse Simon Anholt em uma palestra sobre a Marca Brasil no início desse ano São Paulo, a nossa one word equity, ‘Joy’, precisamos parar para entender o por quê esse italiano simples e comum, tomando um café numa manhã de sexta-feira úmida, tem uma concepção tão sólida e generalizada do povo brasileiro.
Etmologicamente, o gentílico brasileiro difere um pouco dos outros substantivos locativos tais como ino (argentino, argelino), ense (israelense), ês (finlandês, francês) ou ano (africano, cubano). O sufixo eiro normalmente é usado em substantivos e adjetivos que designam profissões, tal como mineiro, engenheiro, carpinteiro, pedreiro, ferreiro, lixeiro, etc. Historicamente, o brasileiro era aquele colono português bastardo enviado ao Brasil para trabalhar na exploração das riquezas nacionais – principalmente o pau-brasil – e sua comercialização com as metrópoles. Brasileiro, simples assim. Ou seja, desde o nosso nascimento como nação, fomos categorizado como um povo constituído no trabalho. Apesar de uma formação complexa devida a nossa saborosa miscigenação, ainda é muito difícil para outras culturas entenderem plenamente essa dicotomia trabalho/diversão que o brasilero tanto utiliza.
Ao mesmo tempo que somos uma nação extremamente trabalhadora, presistente e determinada, sabemos muito bem conciliar as peculiaridades e as delícias de pausas como o Carnval, por exemplo, quando praticamente o país literalmente desliga seus motores produtivos para uma festa pagã, independente do que possa estar acontecendo nesse período. Existe uma anedota popular que dá conta de uma entrevista à um jornal de grande porte com uma mulher simples sobre a crise mundial de 2008 onde o repórter a pergunta: e a crise? como a senhora está lidando com ela? A mulher, marotamente, responde: crise? depois de março a gente pensa nela.
É essa capacidade de trasnformação e adaptação, muitas vezes conhecida como o jeitinho brasileiro, que consolidou no imaginário mundial essa nossa imagem tão surpreendentemente forte. Herança colonial de um país explorado e, principalmente, sem cultura da construção de algo duradouro entre seus líderes. É o famoso país dos 3 S’s: Sun, Samba e Soccer. E é esse país que o italiano médio, assim como o cidadão global médio, conhece, percebe e enxerga. E não adianta capa da The Economist, ou Wallpaper ou até mesmo Monocle para mudar essa imagem. Mesmo com as novas diretrizes do Planalto Central para que tanto a diplomacia política quanto a comercial trabalhem para transformar os 3 S’s para TOTAL (acrônimo para Tecnologia, Obediência, Trabalho, Autenticidade e Legislação), temos um trabalho significativo pela frente para mudar uma percepção secular. Mas, milagrosamente, temos duas grandes oportunidades para uma possível mudança em menos de 6 anos: a Copa de 2014 e as Olimpíadas de 2016. Mas, como de praxe, já começamos mal, principalmente com o episódio da marca da Copa de 2014. E, novamente, não fomos nós que falamos.
Enquanto o Brasil definitivamente não parar para resgatar e recuperar suas várias identidades nacionais, trabalhar seriamente em políticas públicas de transformação social – principalmente na área da educação básica – e começar de fato a contar a sua história, os outros sempre vão contá-la pela gente, o que acontece há um pouco mais de 500 anos. Melhoramos um pouco durante esse período, é verdade, mas sempre somos lembrados que ainda não aprendemos o básico. Então, a reação passiva e divertida de todos brasileiros ao ouvir um italiano nos chamar de país de vagabundos não nos parece tão absurda assim.
A burocracia pelo mundo
fevereiro 27, 2010 by isotipo.labs · Leave a Comment
Diariamente, no caminho para o trabalho, passo em frente a uma região popular e em considerável transformação devido as obras do metrô. Cada dia vejo algo novo, mesmo que seja em microsegundos, dentro do carro. Mas o que sempre me impressiona é uma pequena loja de porta de metal aberta para a rua, onde em um letreiro escrito à mão pode-se ler: Serviços em Advocacia. Dentro da loja encontra-se apenas uma escrivaninha, uma antiga máquina de escrever sobre à mesa, pilhas e pilhas de papel, duas cadeiras a espera de um cliente e um senhor negro de terno mal cortado. Ao mesmo tempo que essa cena não condiz com os suntosos e encarpetados escritórios de advocacia do nosso imaginário, essa simplória loja faz muito mais sentido no tipo de sociedade em que vivemos do que possamos imaginar.
O Brasil é um país calcado em burocracias tão complexas que deixaria Franz Kakfa assustado. E, infelizmente, essa é uma das imagens que o Brasil exporta para o mundo, principalmente quando falamos em negócios internacionais. Em países com bolsões de pobreza gigantescos como o Brasil, a burocracia serve como uma espécie de mantenedora de uma hierarquia imaginária, onde o caos de formulários e números segrega as pessoas, dando poder e função a pessoas ordinárias para que essas continuem a rodar o programa no qual nem mesmo elas sabem para que servem.
O fotógrafo holandês Jan Banning viajou por vários países como China, Estados Unidos, Bolivia, Libéria, India, Yemen, Russia e outros onde fotografou a burocracia local, confirmando que essa segregação ainda faz sentido, infelizmente . O resultado, o quer pode ser visto em algumas imagens abaixo, é de uma crueza extremamente assustadora e familiar e, por que não, bela.
A loja de advocacia do senhor negro no Largo do Batata, em São Paulo, observando mais atentamente, na verdade não destoa tanto de nossa realidade, pelo menos não por enquanto.







Nation Branding, um panorama
fevereiro 19, 2010 by isotipo.labs · Leave a Comment
Post originalmente publicado em: December 8, 2009
Durante quase três anos mergulhei nesta nova disciplina chamada Nation Branding como objeto de pesquisa para o curso de Relações Internacionais e para um projeto de mestrado. Até então, pouco se ouvia falar sobre o assunto e a principal associação feita tanto por leigos quanto por pessoas vinculadas ao universo das Relações internacionais e da Comunicação era que Nation Branding se resumia a uma simples e prosáica propaganda política. Já imaginava que esta não seria a resposta, então resolvi me aprofundar, o que me levou, além do projeto acadêmico, a criação desse site para a discussão e pesquisa de ações ligadas ao tema.
Depois de dezenas de livros, publicações, seminários, artigos, discussões, conversas, críticas e observações de experiências práticas, a resposta não poderia ser outra. O caminho da construção ou reconstrução da imagem de países, cidades, regiões ou lugares é um processo extremamente complexo e demorado, envolvendo disciplinas tão diversas como Antropologia Cultural, Ciência Política e Comunicação além da confluência de vários setores de uma sociedade como ministérios, secretarias de governos, sindicatos patronais, associações civis e a iniciativa privada.
Resumir um projeto de Nation Branding como propaganda política é de uma superficialidade sem precedentes. E para tentar argumentar contra esse senso comum, lastreado em teorias de diversas áreas do conhecimento, resolvi desenvolver uma visão geral do assunto, sobrevoando desde suas referências históricas até os resultados e as consequências de suas aplicações nas sociedades contemporânesa. O resultado é uma introdução ao tema, inexistente em língua portuguesa, que irá guiar minhas pesquisas para projeto de mestrado, onde irei me aprofundar um pouco mais.
Abaixo, disponibilizei a apresentação usada como apoio para a defesa do tema. Em breve estará disponível também uma versão digital para download do trabalho escrito, que será editado em formato de livro através do projeto embrionário de uma mini-editora com o selo isotipo.labs, destinada a vasculhar esse tema e seus subconceitos como Public Diplomacy, Place Branding, Gov 2.0, Sociedade 2.0, Soft Power, DesignCities, Economia Criativa, etc.
Sobre o colapso do tempo …
fevereiro 19, 2010 by isotipo.labs · Leave a Comment
Post originalmente publicado em: November 26, 2009
O TEDxSP ocorrido no último dia 14 de novembro definitivamente foi um divisor de águas na vida das quase 800 pessoas presentes naquele quente e caloroso auditório no antigo bairro da Mooca, em São Paulo. Ainda não tive estômago para digerir tudo que foi dito e pensado por lá, mas o impacto causado foi inquestionável. Assim que a digestão for feita e quando conseguir racionalizar tudo o que foi sentido por lá, irei postar por aqui, mas por enquanto é possível assistir na íntegra as palestras daquele 14 de novembro no site oficial do evento. A cada semana , um novo vídeo é disponibilizado por lá. Vale a pena ver e rever.
Mas enquanto tento organizar o pouco tempo para os novos temas que estão na fila como o post sobre o D[X]I, jornal de design da Universidade de Valencia, Espanha, que será distribuido com exclusividade no Brasil pela isotipo.labs e Polar Studio, ou o grandioso projeto de resgate da identidade argentina desenvolvida pelo estúdio de design portenho No Brand e até mesmo pensatas da reconstrução da Islândia após a última crise mundial ou sobre o fabuloso trabalho do designer Holandês Annelys de Vet, The Subjective Atlas of Palestine, uma grande compilação da rica cultura palestina, livre de qualquer julgamento político ou moral.
Bom, muita coisa para dizer com pouco tempo para escreever. Mas, parafraseando o TED, boas ideais (e projetos) merecem ser espalhados, mesmo que demore um pouquinho.
TEDx São Paulo
fevereiro 19, 2010 by isotipo.labs · Leave a Comment
Post originalmente publicado em: November 13, 2009

Começa amanhã o TEDx São Paulo, edição brasileira do cobiçado e desejado TED, um encontro de pensadores que tem algo a dizer e que merecem que suas ideias sejam espalhadas. A versão brasileira terá mais de 700 pensadores – entre platéia e palestrantes – de diversas áreas de conhecimento para discutir o complexo mas necessário tema “O que o Brasil tem a oferecer ao mundo agora?” Na versão original, que existe desde 1984, várias “celebridades” como Bill Clinton, Al Gore, Gordon Brown, Stephan Sagmeister, etc já divulgaram suas ideias e suas experiências em palestras de até 15 minutos.
Na edição de São Paulo, mais de 30 pensadores brasileiros vão mostrar suas propostas para colocar o Brasil de vez na linha de frente do pensamento mundial. Desde biólogos e engenheiros quimícos até designers e banqueiros, todos, de uma forma ou de outra, envolvidos na criação de boas ideias para o desenvolvimento do Brasil. Uma ótima oportunidade para aprender a escutar com quem tem o que dizer.
A isotipo.labs orgulhosamente estará lá, entre esses 700 privilegiados, e tentarei transmitir por aqui todas as minhas impressões, já que o evento irá registrar tudo e disponibilizar via web em breve.


















