Sobre Peru, marcas e publicitários

abril 5, 2011 by isotipo.labs · 1 Comment 

O pequeno mas latente mundo do Place Branding está começando a sair da toca e mostrar à que veio. Uma disciplina ainda muito confundida com propaganda política, onde grandes agências – as maiores responsáveis pela criação desses projetos – ainda se utilizam de técnicas comuns de comunicação para o desenvolvimento desses projetos e, principalmente,  lida com a construção de uma marca de um país ou de uma região com o mesmo instrumental para a criação de uma marca de sabão em pó. Mas parece que aos poucos algo vai se transformando. Talvez a informação de que outros métodos e pensamentos são necessários esteja ficando mais evidentes e mais óbvios para todos os envolvidos. Pequenos cursos estão começando a surgir e orgãos oficiais estão se atentando para que não basta pagar para um grande nome da publicidade local cuidar de algo tão valioso, mas ainda muito sucateado.

Um caso interessante ocorrido esta semana foi a publicação do mini-artigo de Tânia  Savaget com o título ‘O branding para países, estados, cidades – Como seria no Rio? A hora é agora‘ no Blue Bus, tradicional site sobre notícias do mundo da propaganda, lido por 14 de 10 publicitários do nosso Brasil varonil. Como a Tátil foi a vencedora – com muito mérito – do concurso da marca das Olimpíadas de 2016 no Rio de Janeiro, acabou se tornando o escritório com maior propriedade para falar sobre o assunto no Brasil. Mas é sempre bom lembrar que o processo de construção da marca, por mais belo que tenha sido – conforme o vídeo abaixo -, se resume apenas à uma marca que, apesar do evento ser de extrema importância para um processo de branding, é bastanate efêmero e está longe da complexidade de um projeto de marca para um país ou cidade.

Mas, então como pensar de forma consistente um objeto tão complexo como um país? Muito tem se feito mas pouco com relevância de fato. Pensar um projeto de uma marca não é mais apenas qual tipografia usar ou que ela deva representar – apesar de ser uma fase importante do processo – e sim o que está por trás deste projeto todo e qual o objetivo a se atingir. Normalmente ao se pensar uma marca de país se cria algo apenas para a promoção do setor turístico de determinada região. Os outros setores ficam só, perdidos num mar sem identidade.

A grande vedete deste ano é o novo projeto de marca para o Peru, nosso vizinho sulamericano. O Peru já tinha uma marca usada para o setor turístico, grande fonte de renda para o país, mas percebeu que com uma marca que transmitisse valores antigos e para um setor simplesmente não era mais viável, afinal a identidade de um país é de seu conjunto e não apenas para um determinado segmento. A FutureBrand de londres foi a responsável pela tarefa. Com a nova marca da Austrália e do arquipélago de Santa Lúcia no currículo e além de serem os responsáveis por um dos principais índices de classificação dos esforços de branding de países, mostraram neste novo projeto que de fato estão entendendo com profundidade como lidar com algo tão extenso e complicado quanto uma identidade nacional.

A marca Peru veio acompanhada de claros objetivos e com quem quer falar. Ao invés da grande maioria focar sua comunicação para a promoção do turismo, o Peru quer também atrair investimentos internacionais e usar como ferramenta principal de promoção dos seus produtos no exterior. Ou seja, a ideia é que a marca seja onipresente em tudo o que for relativo ao país, desde ações promocionais no Facebook até a fita para embalar seus produtos regionais. Até então, apenas a Suíça conseguiu colocar sua marca nacional no imaginário mundial. Se o Peru vai conseguir, é uma questão de tempo. Mas o primeiro passo foi dado da forma mais correta possível.

Para dar suporte ao lançamento da nova marca, o governo lançou o Marca Peru, um site onde todas as questões que envolvem a criação, o desenvolvimento, as pesquisas e os objetivos são detalhados de forma extremamente clara e envolvente. É um belo exemplo de organização e até de respeito com a sociedade peruana como um todo, a grande financiadora do projeto.

Abaixo, algumas imagens e o vídeo promocional da Marca Peru.

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Aprendendo uma cultura

fevereiro 8, 2011 by isotipo.labs · 1 Comment 

Vilém Flusser, linguísta e filósofo da comunicação e do design, afirmou no seu ‘Língua e Realidade’ (1963) que conhecer várias línguas é transitar por vários mundos e, consequentemente, por realidades distintas. Ou seja, para conhecer e viver pronfudamente uma nova cultura e entender os hábitos de uma outra sociedade, nada mais óbvio do que falar sua língua, um dos grandes pilares da formação da identidade de um povo.

Quando Flusser escreveu sobre transitar por diversas realidades ao falar várias línguas, estava claro que ele estava pensando sobre como o aprender uma nova língua é viver em sua essência uma outra cultura. E, como já é mais do que sabido, a melhor forma de apredender a língua local é viver a cultura local, coisas tão indissociáveis quanto fundamentais.

Muito mais que um simples comercial para uma escola de línguas, os vídeos abaixos traduzem de forma extremamente bela e contemporânea essa sutíl relação entre língua e cultura.

Um atlas subjetivo da Palestina

dezembro 10, 2010 by isotipo.labs · 1 Comment 

No início dessa semana o presidente Lula (há menos de 20 dias do final do seu mandato) reconheceu publicamente a Palestina como Estado independente e com as fronteiras de 1967, antes da antes da Guerra dos Seis Dias. Ou seja, com uma quantidade de território consideralvemente maior do que a dos dias de hoje, que se resume basicamente a Faixa de Gaza e a região da Cisjordânia. À partir desse reconhecimento brasileiro, qual é de fato será seu efeito na comunidade internancional? Bem pouco, provavelmente. O Brasil acredita que o reconhecimento ajudará no processo de paz com Israel, mas é bem possível que nada mude com essa declaração brasileira. Os mais polêmicos e conspiradores vão achar que é mais uma ação anti-americana e esquerdista do governo Lula, que apoia governos ditatoriais, corruptos e terroristas, etc, etc. Os otimistas vão dizer que é uma tentativa de ajudar num processo tão complicado quanto uma briga de família. E os pragmáticos vão afirmar que é mais uma jogada da diplomacia brasileira em busca de relevância no circuito político internacional. Mas não é isso o que nos interessa nesse momento. Deixemos essa questão para analistas internacionais e afins. O que nos interessa aqui é o aspecto cultural dessa história toda.

Afinal, quem são os Palestinos? Sabemos que são árabes, mas como é o dia-a-dia em suas cidades sitiadas e praticamente esquecidas do mundo ocidental dito civilizado? O que comem, o que escutam, o que leem, o que conversam, o que falam, o que pensam?

Foram essas mesmas perguntas que motivaram o designer holandês Annelys de Vet a investigar um pouco mais à fundo o tema para criar o Subjective Atlas of Palestine, um compêndio – teoricamente – desprovido de julgamentos ideológicos, históricos e etnocentristas. A ideia foi basicamente compilar a rotina dessas pessoas através dos seus hábitos alimentares, culturais, informativos, ou seja, cotidianos. O resultado é um belo livro, riquíssimo em imagens e informações que podemos identificar – independente de questões políticas e religiosas – a essência desse povo que sempre nós é apresentado nos extremos: ou o maior vilão ou a grande vítima.

Se Annelys conseguiu ser isento na sua pesquisa, eu tenho minhas dúvidas, mas isso não desmerece em hipótese alguma o rico e completo retrato de uma sociedade milenar em situações extremamente corriqueiras.

O livro está disponível para download no site do projeto. Vale a pena também ver os outros atlas do designer: o da Sérvia e da Holanda.

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Nossa história contada pelos outros

outubro 8, 2010 by isotipo.labs · Leave a Comment 

Jano / Rio de Jano (divulgação)

Rio de Jano

Pense numa situação cotidiana: o café da manhã diário na padaria da esquina. Na mesa ao lado, dois italianos, em um ítalo-português novelesco, discutem sobre coisas trivais da vida, tal como a renovação do passaporte de um deles. Apesar de ser impossível não ouvir a conversa alheia – devido ao volume da voz – tentava prestar atenção em coisas mais importantes como, por exemplo, a quantidade de açúcar em meu café. Mas não dava. O tom da conversa era muito alto. Italianos, diriam alguns.

Mas a conversa esquenta quando eles percebem que na próxima segunda-feira, dia 11 de outubro, é meio-feriado, – a famosa emenda -  já que o dia 12 é recesso nacional. Festa católica, dia da Nossa Senhora Aparecida, a padroeira do Brasil. Diante da constatação de uma segunda-feira inexistente, um deles afirma categoricamente: segunda é feriado para quem é vagabundo. Na sequência, sem pestanejar, o segundo emplaca: ma qui è un país di vagabunti! Assim mesmo, na lata, em alto e bom som e num italiano digno de Tony Ramos.

Então, longe de qualquer juízo de valor, essa simples constatação de um estrangeiro em terras brasileiras, rodeados de brasileiros, dita de forma tão assertiva, nos mostra um lado interessante que mesmo esse Brasil tão celebrado como o novo eldorado de uma Europa estagnada, que estampa semana sim semana não a capa da influente The Economist, temos um pequeno e considerável problema que nos persegue à alguns séculos: como somos vistos por nossos interlocutores. E como não controlamos essa percepção.

A declaração, preenchida de preconceitos não-pensados mas solidificaos no imagninário deste italiano comum, representa essa não-história contada por nós, além, é claro, da ajuda dos indefectíveis clichês e esteriótipos que permeiam o insconsciente coletivo mundial. Antes de questionar se de fato somos vagabundos ou então assumir de uma vez por todas essa nossa verve meio joie de vivre, ou até mesmo como disse Simon Anholt em uma palestra sobre a Marca Brasil no início desse ano São Paulo, a nossa one word equity, ‘Joy’, precisamos parar para entender o por quê esse italiano simples e comum, tomando um café numa manhã de sexta-feira úmida, tem uma concepção tão sólida e generalizada do povo brasileiro.

Etmologicamente, o gentílico brasileiro difere um pouco dos outros substantivos locativos tais como ino (argentino, argelino), ense (israelense), ês (finlandês, francês) ou ano (africano, cubano). O sufixo eiro normalmente é usado em substantivos e adjetivos que designam profissões, tal como mineiro, engenheiro, carpinteiro, pedreiro, ferreiro, lixeiro, etc. Historicamente, o brasileiro era aquele colono português bastardo enviado ao Brasil para trabalhar na exploração das riquezas nacionais – principalmente o pau-brasil – e sua comercialização com as metrópoles. Brasileiro, simples assim. Ou seja, desde o nosso nascimento como nação, fomos categorizado como um povo constituído no trabalho. Apesar de uma formação complexa devida a nossa saborosa miscigenação, ainda é muito difícil para outras culturas entenderem plenamente essa dicotomia trabalho/diversão que o brasilero tanto utiliza.

Ao mesmo tempo que somos uma nação extremamente trabalhadora, presistente e determinada, sabemos muito bem conciliar as peculiaridades e as delícias de pausas como o Carnval, por exemplo, quando praticamente o país literalmente desliga seus motores produtivos para uma festa pagã, independente do que possa estar acontecendo nesse período. Existe uma anedota popular que dá conta de uma entrevista à um jornal de grande porte com uma mulher simples sobre a crise mundial de 2008 onde o repórter a pergunta: e a crise? como a senhora está lidando com ela? A mulher, marotamente, responde: crise? depois de março a gente pensa nela.

É essa capacidade de trasnformação e adaptação, muitas vezes conhecida como o jeitinho brasileiro, que consolidou no imaginário mundial essa nossa imagem tão surpreendentemente forte. Herança colonial de um país explorado e, principalmente, sem cultura da construção de algo duradouro entre seus líderes. É o famoso país dos 3 S’sSun, Samba Soccer. E é esse país que o italiano médio, assim como o cidadão global médio, conhece, percebe e enxerga. E não adianta capa da The Economist, ou Wallpaper ou até mesmo Monocle para mudar essa imagem. Mesmo com as novas diretrizes do Planalto Central para que tanto a diplomacia política quanto a comercial trabalhem para transformar os 3 S’s para TOTAL (acrônimo para Tecnologia, Obediência, Trabalho, Autenticidade e Legislação), temos um trabalho significativo pela frente para mudar uma percepção secular. Mas, milagrosamente, temos duas grandes oportunidades para uma possível mudança em menos de 6 anos: a Copa de 2014 e as Olimpíadas de 2016. Mas, como de praxe, já começamos mal, principalmente com o episódio da marca da Copa de 2014. E, novamente, não fomos nós que falamos.

Enquanto o Brasil definitivamente não parar para resgatar e recuperar suas várias identidades nacionais, trabalhar seriamente em políticas públicas de transformação social – principalmente na área da educação básica – e começar de fato a contar a sua história, os outros sempre vão contá-la pela gente, o que acontece há um pouco mais de 500 anos. Melhoramos um pouco durante esse período, é verdade, mas sempre somos lembrados que ainda não aprendemos o básico. Então, a reação passiva e divertida de todos brasileiros ao ouvir um italiano nos chamar de país de vagabundos não nos parece tão absurda assim.

O novo Báltico

setembro 9, 2010 by isotipo.labs · Leave a Comment 

Há algo de novo acontecendo nas águas geladas do Báltico. Os três países que formam essa microrregião (Estônia, Letônia e Lituânia) sempre foram coadjuvantes na história recente da humanidade, consenquência da inquestionável dominação social, militar e da homogenização cultural  imposta pela União Soviética por mais de 70 anos. Hoje, quase 20 anos depois de independência e 6 após a entrada dos três países na União Européia, os pequenos bálticos lutam agora para transformar a imagem herdada pela era soviética de corrupção, prostituição, pobreza e decadência, além da consolidação de uma identidade nacional forte e distintas entre si. Então, nada mais natural do que se aventurar por projetos de branding para tentar esta difícil transformação. E cada um dos países se lançaram à esses esforços, ora bem sucedidos, ora de tão tímidos e conservadores que ainda continuam a causar confusão na cabeça de seus interlocutores.

Mas existem bons argumentos. Após a entrada dos países na União Européia em 2004, a economia e qualidade de vida da região aumentou exponencialmente, muito graças à mão de obra barata e qualificada da região, mas o turismo e o investimento internacional, além do reconhecimento de seus produtos, não apareceram como deviam. Localizados em uma região estratégica, rica em natureza e com um grande passado a ser descoberto, os países então passam a investir em projetos de valorização da identidade nacional e promoção internacional de seus valores intangíveis, cada um com suas peculiaridades.

Dos três países, definitivamente a Lituânia é o que mais investe em promoção internacional e no que eles próprios chamam de “estratégias criativas para o desenvolvimento da imagem econômica do país”.  Para isso, tiveram ajuda dos especialistas da Saffron Brand Consultants, um grupo internacional de branding capitaneado por Wally Ollins. A estratégia criada pela consultoria, extremamente rica, complexa e completa, defende que a imagem econômica do país é indissociável de sua imagem como um todo. Então, como argumento inicial que norteu todo o projeto, a Lituânia não deveria mais ser percebida apenas como um dos três países do Báltico e sim como o país mais atrativo para investimentos do nordeste da Europa pelo seu tamanho (é o maior dos três países),  pela infraestrutura superior, pela ética nos negócios, pela notável criatividade cultural e por sua localização privilegiada, no meio do caminho entre a Europa ocidental e oriental, além da vizinha Rússia. Então aqui temos um projeto de branding que extrapola a simples promoção turística de sua região. A Lituânia quer ser mais do que isso. Quer ser uma espécie de novo eldorado para os negócios globalizados numa região ainda pouco explorada.

Outro artifício importante para a consolidação de uma imagem positiva para o país  foi a valorização dos produtos e serviços produzidos internamente e pensados como potenciais “embaixadores” para a valorização da marca nacional mundo afora. Apesar de uma identidade visual extremamente destoante de toda a comunicação, o Made in Lithuania é uma ferramenta online onde está concentrado todas as informações relevantes sobre a produção local passível de exportação. É o conceito de Country of Origin aplicado na prática.

Abaixo, um vídeo de apresentação sobre o país que, apesar do foco explícito em atração de investimentos e novos negócios, se utiliza de uma linguagem gráfica e um tom de voz extremamente contemporâneo, beirando quase o pop, analogia interessante para um país que, apesar de mais de mil anos de tradição e história, vive seu tempo.

A Letônia escolheu um caminho mais curto e objetivo para se diferenciar de suas duas irmãs. Condenada à mesma herança soviética dos outros dois países, a Letônia frequentemente sofre com sua instabilidade econômica, princiaplemte pós-crise global de 2008. Mas uma de suas grandes características é a capacidade de seu povo enfrentar problemas milenares com bom humor e resiliência. Esse então foi o mote para o mais recente esforço de promoção internacional criado pelo país. Como foco claro na experiência e na atração de turistas para sua região, a ação desenvolvida pelo país na Expo 2010 Shangai,  batizada de Technology of Happiness, nada mais é que um grande tubo de vento multicolorido onde as pessoas são convidadas a experimentar a sensação de “voar de felicidade”. Simples assim. E em 4 meses de exposição, é um dos pavilhões mais concorridos de toda a Expo.

Apesar de ser altamente questionável pelo seu efeito efêmero, a ação proposta pelo país tem revelado uma interessante e pouco racional faceta de um projeto de Nation Branding: a das ações falarem mais do que as palavras. Com pouco discurso, com uma linguagem extremamente moderna e colorida e com a possibilidade de vivenciar uma experiência única, o país está conseguindo transformar a velha imagem soviética de um povo fechado, triste e cinzento em uma nação única e vibrante. Segundo o site oficial do país no evento, o ineditismo da ação já começa a render bons frutos para o país, em forma de procura por investimentos internos.

Já a Estônia, o menor dos três países, optou por um projeto tímido, conciso, quase silencioso. Lançado em 2001, o projeto Branding Estonia tinha como objetivo básico se distanciar de seu passado soviético e se aproximar dos primos escandinavos, já que a língua estoniana tem parentescos bem próximos com o finlandês, para se autoafirmarem como um país moderno. Auto entitulado de “a Nordic country with a twist, o projeto estoniano tenta criar uma percepção de credibilidade tanto do país quanto do seu povo, que invariavelmente tem sua imagem manchada por casos de corrupção e prostituição. A experiência da Estônia tenta usar os aprendizados obtidos pela Irlanda, um país também pequeno, ofuscado muitas vezes por uma grande potência (caso da Inglaterra), mas com grandes qualidades econômicas e culturais.

A grande ressalva em construir a Estônia como um país nóridco com uma certa “ginga” foi a fraca linguagem visual e o simplório tom de voz escolhidos para comunicar um país com grandes problemas de percepção. Apesar de uma marca promocional com contornos contemporâneos, um certo ruído gráfico em sua identidade visual – principalmente mostrado no vídeo e no site da maior ação promocional do país, a Estônia Expo Center-,  mostra uma fraqueza em sua execução, remetendo à uma imagem antiga e ultrapassada, que não condiz com o discurso de contemporaneiade que o documento Estonia Style brandbook tanto defende. Talvez a efemeridade em focar apenas na questão turística aliado a uma identidade visual dessonante seja o grande ponto fraco desse projeto.

Apesar das especificidades de cada projeto de branding desenvolvidos para os três países, o grande desafio na verdade, além de atrair turistas e investimentos -  o que não é mais um dos grandes problemas após a entrada na União Européia – é a consolidação e a diferenciação de cada identidade nacional. Pesquisando um pouco mais a fundo, é possível identificar oceanos de diferenças culturais entres os três países tão próximos e que por muitas décadas foram subjulgados por uma cultura homogenizante. Mas para o interlocutor mais desatento, diferenciar Estônia, Letônia e Lituania pode ser uma tarefa tão difícil quanto aprender um de seus idiomas. A identidade nacional é o valor intangível mais precioso que qualquer nação pode ter. Saber explorá-la de uma forma original e desvinculada de clichês e esteriótipos é o grande desafio. Para chegar a um resultado satisfatório e sustentável a longo prazo – assim como os irlandeses conseguiram magistralmente se desvincular culturalmente da Inglaterra através de suas marcas, seus hábitos, suas lendas e de seu povo – os países bálticos vão precisar se mostrar cada vez mais diferentes e originais  para seus parceiros internacionais, não necessariamente só para os turistas. Substrato para essa diferenciação existe aos montes.

Pindorama Remix @ Casa Brasil Joanesburgo

agosto 20, 2010 by isotipo.labs · Leave a Comment 

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Um dos grandes projetos da Embratur para a divulgação do país durante a Copa da África do Sul de 2010 foi a criação da Casa Brasil / Brasil Sensational Experience, um espaço de 2900 metros quadrados e 8 ambientes temáticos construído em Joanesburgo, África do Sul, com o objetivo de mostrar um Brasil moderno e continental, onde foram apresentadas várias facetas da cultura, da tecnologia, da econômia, do turismo e da identidade nacional.

Dos vários eventos que aconteceram durante os quase 30 dias em que o espaço ficou aberto ao público da Copa do Mundo, a divulgação das cidades-sede da Copa de 2014 através de performances artísticas, multimídias e sensoriais foi um dos mais concorridas. Para representar as cidades da região Sudeste onde acontecerão jogos do mundial em 2014 – Belo Horizonte, Rio de Janeiro e São Paulo -  o coletivo multimídia mineiro F.A.Q foi convidado a reinterpretar essas cidades através de uma experiência audiovisual inovadora. Entitulado de Pindorama Remix, a apresentação foi feita no dia 24 de julho para uma platéia de mais de 200 pessoas onde imagens e músicas icônicas e originais da região foram reprocessadas e executadas ao vivo.

Como parte da argumentação e da construção do projeto, a isotipo.labs foi convidada a escrever um breve texto/artigo defendendo a importância do uso de novas tecnologias para a divulgação e consolidação de uma cultura nacional contemporânea, desvinculada de esteriótipos e clichês já tão empregnados no imaginário mundial e onde as várias identidades brasileiras seriam enaltecidas.

Abaixo, a íntegra do artigo usado como argumentação para o projeto. Para imagens de bastidores do evento, acesse o Flickr da Voltz Design, um dos integrantes do coletivo F.A.Q

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Em busca das identidades do Brasil

Talvez o Brasil esteja vivendo o melhor momento em toda sua história para a consolidação positiva de sua imagem e de suas diversas identidades, longe dos clichês e estereótipos já estabelecidos no imaginário mundial. A ideia de um país festeiro, terra do futebol e do samba, onde a alegria sem causa é a palavra de ordem, conserva uma imagem nacional que, apesar de também ser verdadeira, acaba por ser generalizante, ofuscando outras áreas produtivas e culturais, inovações e diversas atividades que produzimos por aqui. O Brasil hoje é um país moderno, forte, que busca reconhecimento e relevância mundial através de suas ações políticas e nos seus produtos e serviços, mas ainda é na cultura e no seu povo a maior fonte de produção para emanar essa imagem tão desejada.

Sede dos dois principais eventos mundais, a Copa de 2014 e as Olímpiadas de 2016, o Brasil terá a oportunidade única de mostrar quem de fato é, através da nossa cultura – uma monumental miscigenização que formou esse povo novo que é o brasileiro-, que nos torna únicos no cenário internacional. Alguns importantes esforços já estão sendo feitos para revelar e imprimir a nova alma brasileira através, principalmente, da arte e da tecnologia, mas sem se esquecer de suas raízes históricas e tradições culturais, tão importantes para a nossa formação como sociedade e nação. O projeto Pindorama Remix é um desses exemplos. Com o desafio de apresentar as três maiores cidades da região Sudeste -, o coletivo artístico multimídia F.A.Q tem a importante missão de mostrar a  diversidade e pluraridade dessas várias “identidades” brasileiras através de uma performance onde a especificidade de cada região é destacada

A inusitada e não-convencional linguagem áudiovisual do F.A.Q, onde símbolos e ícones da região sudeste serão interpretados, processados e manipuladas ao vivo, associada ao caráter tecnológico e ao ineditismo de sua apresentação – uma clara analogia as características inovadoras das cidades representadas – em um evento como a Casa Brasil durante a Copa da África do Sul, frequentado por um público de distintas nacionalidades, será uma importante ferramenta para a promoção e divulgação de um Brasil cada vez mais contemporâneo, aberto ao mundo mas sempre valorizando aquilo que lhe é mais importante: a cultura nacional, desvinculada de maneirismos arcaicos e ultrapassados.

Gustavo Santos é designer com especialização em Relações Internacionais pela Universidade Belas Artes de São Paulo, editor e curador da TimeSheet Magazine, revista eletrônica voltada para a discussão e a produção de arte e design contemporâneos e do site isotipo.labs, centro de discussão e pesquisa sobre Nation e Place Branding, além de questões de identidade cultural e imagem nacional. Publicou o livro Nation Branding: Construindo a Imagem das Nações pela isotipo.labs.

Minha querida Índia

agosto 20, 2010 by isotipo.labs · Leave a Comment 

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Apesar de todos os esforços institucionais que os países se utilizam para tentar construir uma imagem positiva no imaginário coletivo mundial, nada é mais poderoso e eficaz do que a chamada experiência emocional. Ela é única, exclusiva e ninguém pode comprar, alterar ou transformar essa sensação que temos e sentimos quando chegamos em algum lugar desconhecido. Conseguir atingir a esse nível de intimidade emocional com um interlocutor é a principal fonte de sucesso para que qualquer projeto de Nation Branding, raramente alcançado pelos projetos tradicionais de comunicação produzidos pelos departamento de turismo dos países . Não existe logomarca, slogan ou ações promocionais  que substituam o relato de um visitante que vivenciou de fato a riqueza e singularidade da cultura e da identidade daquele  país. E quando toda essa experência é transmutada em uma singela e bela homenagem sobre aquilo tudo que foi vivido em terras estrangeiras, todos saem ganhando, do leitor ao futuro visitante.

Foi mais ou menos isso que os designers Fabiano Fonseca e Eduardo Recife fizeram. Um generoso e delicado olhar para esse país já tão retratado. Mas o que  se diferencia aqui de todos os relatos já produzidos é uma Índia particular, única, tão íntima que pode até ser chamada de querida, assim como o título da obra. My Dear India é muito mais do que um livro de fotos de uma prosáica viagem de turismo. É uma espécie de agradecimento à aquele país por toda experiência vivida. E, agora, compartilhada.

O belo projeto, com coordenação editorial de Alessandra Maria Soares da Voltz Design junto com os autores, não está disponível em livrarias, mas pode ser adquirida diretamente com os artistas.

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Japão, um país estranho

março 22, 2010 by isotipo.labs · Leave a Comment 

O designer japonês Kenichi Tanaka, num exercício interessante de auto-reflexão, desenvolveu uma tese de como seu país era visto pelos olhos estrangeiros. Para isso, criou um vídeo onde dados tradicionais como o alto índice de desenvolvimento humano ou o segundo maior PIB do mundo são associados a certas peculiaridades típicas daquela sociedade, como os olhos pequenos, a tímidez de seu povo e o fascínio quase descontrolado de suas mulheres por dietas e marcas ao mesmo tempo que são apaixonados por fast food. O resultado, abaixo, é um divertido e belo retrato da sociedade japonesa, mesmo que carregado de  humor e uma certa exarcebação de clichês.

Os jovens europeus

fevereiro 19, 2010 by isotipo.labs · Leave a Comment 

Post originalmente publicado em : October 31, 2009

A história de Kosovo, a última nação que se tem notícia a declarar independência – apesar de ainda não ser reconhecida por todos os países – é o mínimo instigante. Sempre foi, de uma forma ou de outra, ocupada pelos seus vizinhos. Após o fim a antiga Iuguslávia e a criação de vários estados independentes, Kosovo ainda ficou presa sobre o domínio sérvio, que ensaiou uma tentativa de limpeza étinica na sua população de maioria albanesa-mulçumana sob o comando de Sloboan Milosevic. Com sua recém conquistada independência, Kosovo tenta juntar seus cacos após anos de histórias de violência. Não vai ser fácil mudar a imagem de uma região devastada pela guerra e a idéia de celeiro de criminosos internacionais inescrupolosos, tal como mostrado no cinema.

Mas Kosovo tem um outro lado interesante: é o país do mundo com a maior população jovem da Europa, com uma idade média de 25,9 anos, o que sugere uma idéia de esperança na reconstrução tanto política quanto social daquela região. E foi esse o mote que a Saatchi & Saatchi de Israel se apropriou para criar o filme que inicia um belo esforço de Nation Branding de Kosovo. Assista ao  filme acima e reflita sobre o efeito e o poder que as imagens tem sobre a percepção do país. Nada pretensioso, nada mentiroso. Apenas um desejo jovem e coletivo de tentar resconstruir sua própria história e identidade.

Os países e seus slogans

fevereiro 19, 2010 by isotipo.labs · Leave a Comment 

Originalmente publicado em: October 24, 2009

Primeiro confesso que tenho andado sumido dessas bandas, mas por motivos nobres e acadêmicos: estou na véspera da entrega da minha tese, então, tudo anda um pouco fora de ordem.

Mas a vida continua e os temas ligados a comunicação e a imagem dos países estão cada vez mais em voga. Neste post falei um pouco sobre os países e suas marcas para a promoção internacional. Se já é difícil sintetizar em imagem  idéias e conceitos tão complexos que forma a identidade de um país, imagina então resumir tudo isso em algumas palavras. Na imagem ainda nos resta o artifício conceitual da analogia e da subjetividade visual de cada região. Agora nas palavras esses subterfúgios não funcionam muito bem. Aqui o que vale é a objetividade e a clareza das idéias. Como resumir toda a complexa estrutura cultural e social da Índia, um país quase continental com tradições milenares mas ao mesmo tempo se esforçando para construir uma imagem de Estado contemporâneo e moderno? Nada simples. E como tudo o que é simples é infinitamente mais difícil, essa tarefa se torna extremamente árdua.

Abaixo temos uma série de slogans de países colhidos pelo Ricardo Freire do blog Viagem na Viagem durante a ABAV, a feira da Associação Brasileira de Agências de Viagens, que aconteceu na última semana no Rio de Janiero. Tanto a inspiração para este post como as fotos aqui publicadas são totalmente creditadas ao Ricardo Freire.

Tem para todo o tipo. Desde as mais econômicas e comuns como o do Uruguai e do Panamá até os mais audáciosos como o de Aruba e da Colômbia, que neste caso específico teve a coragem de brincar com um tema tão caro ao país que é a violência. O Brasil mantém o seu Sensacional! que particulamente gosto muito, assim como a sua marca, mas perigosamente parecida com o campeão deste ranking que é o da Índia, que conseguiu resmuir toda aquela diversidade cultural descrita lá em cima em uma simples palavra: Incrível!. O lindo filme que vem para sustentar a campanha torna isso ainda mais claro.

Mas o que ainda os países não entenderam no seu processo de promoção internacional é a necessidade de uma coesão de sua comunicação para melhorar sua percepção. Enquanto os países assinarem de forma diferente em cada setor onde se apresentam, a sua imagem vai continuar distorcida. Pequenos detalhes básicos como a uniformização da tipografia até o uso das cores para representar suas idéias ainda são ignorados. Imagine se uma Coca-Cola assinar seu slogan em uma tipografia radicalmente diferente daquela usada em toda sua comunicação há anos? Fatalmente uma desconexão com o consumidor irá ocorrer. O mesmo pode acontecer com os países. Neste quesito, o Brasil está se mantendo firme na sua comunicação internacional, sempre associando a marca internacional quando for assinar junto ao slogan.

Bom, vamos ao slogans. E, também garimpado pelo Ricardo Freire, segue o filme de sustentação do slogan Incredible! da Índia.

Incredible ! India

Brasil Sensacional!

Uruguay Natural

St Maarten

Republica Dominicana

Panama

Peru Mucho Gosto

Guatemala

Costa Rica

Colômbia

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