Pripyat, uma trilha sonora imaginada

janeiro 5, 2011 by isotipo.labs · 3 Comments 

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Por volta de 2002, numa internet onde as redes sociais engatinhavam e as informações tinham que ser de fato garimpadas, caí meio que por acaso no site da fotógrafa ucrâniana Elena Filatova, que tinha com hobbie viajar de moto, sozinha, por áreas abandonadas e esquecidas de seu país, fotografando o que via e publicando em seu site. Um desses lugares foi Pripyat, uma pequena cidade construída em 1970 ao largo da usina de Chernobyl. Na época em que a cidade foi retratada pela fotógrafa, Pripyat era um lugar esquecido e abandonado, devido ao enorme índice de radiação existente na região, localizada dentro de uma área chamada zona de alienação pelo governo ucraniano. Ou seja, uma cidade fantasma.

Ao ver as fotos de Elena, fui absorvido por uma sensação estranha, uma mistura de curiosidade e tristeza por aquelas imagens silenciosas e repletas de significados contraditórios.

A União Soviética sempre me cativou de alguma forma. Muito menos pelo seu sistema político e ideológico mas sim pela sua estética, a concepção e construção de suas imagens e, principalmente, pelo seu lado humano não divulgado, quase que desconhecido mas bastante imaginado. Aquela intransponível barreira cultural, as especulações feitas pelos ocidentais e, principalmente, pelo seu legado histórico fez de mim um grande observador daquela região. Os erros cometidos durante sua existência como uma república socialista tinha um certo charme mambembe, apesar de nunca ignorar suas consequências políticas, humanas e sociais. Mas era inevitável o fascínio que todo aquele projeto de nação, de sociedade e, por que não, de uma nova ordem mundial que era emanada, mesmo dentro de uma distopia e sempre com a consciência de sua vulnerabilidade, de sua falibilidade como algo factível.

Mas imagens de Elena eram diferentes. Apesar de uma sombria beleza, revelou, 16 anos depois, o fracasso de uma utopia, do tal projeto de uma nova sociedade baseada num sistema natimorto e mequetrefe que era o comunismo ou, para ser um pouco mais exato, o tal do socialismo real. Até então, niguém tinha ido à aquela região, onde as radiações ainda são extremamente maléficas a qualquer ser vivo e teve seu solo e água condenados por mais de 2500 anos.

Durante seus 16 anos de existência, Pripyat foi a menina dos olhos do sistema soviético. Construída no meio do nada para servir de moradia para os funcionários da usina e de lazer e educação para seus filhos e familiares, a pequena cidade era o modelo a ser seguido e aplicado em todas as cidades socialistas até então. Era a perfeitra aplicação da doutrina urbanística comunista: moradia, saúde, trabalho, educação e lazer igualitária, uma cidade pensada para as pessoas, com amplos parques, áreas de lazer, escolas. Ruas largas, extremamente floridas e grandes edifícios de moradia coletiva foram construídos. Era  o oposto daquela imagem das cidades cinzentas, escuras e frias que se tinha na época. Muitos soviéticos aspiravam morar em Pripyat. Era o degrau máximo daquela sociedade, que deveria ser expandida para todas as cidades que faziam parte do bloco.

Mas em 1986 tudo isso mudou. Localizada apenas à 25km de Chenobyl, a cidade foi a primeira a ser afetada após a explosão de um dos reatores da usina. Como todo o acidente foi encoberto pelo governo soviético, a população de Pripyat só foi evacuada da área de risco dois dias depois da catástrofe. Mas o estrago já estava feito. Quase toda a população de cerca de 50.000 pessoas foi afetada de alguma forma pela radiação. As que sobreviveram foram obrigadas a abandonar todos seus pertences e suas vidas. Foram embora apenas com a roupa do corpo. As imagens de Elena mostram esse exato momento, como se aquele lugar tivesse sido congelado pelo tempo: a mesa de café posta, as bonecas abandonadas nas casas, os livros escolares abertos nas salas de aula, etc.

Hoje Pripyat virou um improvável mas concorrido roteiro turístico. Vários pacotes – incentivados pelo governo da Ucrânia – permitem passar horas e até dias na região, visitar os edifícios tomados pela insistente vegetação e tentar ouvir o ensurdecedor silêncio que deve reinar por aquelas bandas. Um repórter da Revista Trip fez um relato interessante de um desses roteiros.

Ao ver pela primeira vez as imagens de Pripyat, um filme imaginário me veio à cabeça: como eram e como viviam essas pessoas? Qual eram suas rotinas? O que faziam antes do acidente e como se comportaram ao saber que teriam que abandonar tudo, sem saber porque e para onde?

O filme ficou só na vontade, mas o silêncio das imagens de Elena provocou um exercício de pensar qual seria a trilha sonora desse filme imaginário. Vasculhando os bits do passado, me lembrei que de fato tinha feito essa trilha. Abaixo disponibilizei a trilha completa – cerca de 1h10m -  e a respectiva ordem das músicas.

As músicas foram organizadas em uma ordem imaginária dos acontecimentos: a inauguração da cidade e a euforia da promessa de uma organização social moderna e vibrante; a vida cotidiana de seus moradores, o passeio no parque, a saída para o trabalho, a ída para a escola, as festas e os bailes nos bares e clubes; o acidente, a sensação de algo estranho acontecendo, a desinformação geral e a angústia pelo destino desconhecido; o caos geral, a evacuação silenciosa e a vida deixada para trás e, por fim, o abandono, a geração quase espontânea de uma cidade-fantasma aos 16 anos, os pertences pessoais à espera de seus donos e a natureza fazendo seu papel de, aos poucos, eliminar um sonho constrúido mas fadado ao fracasso.

Enfim, um livre exercício de imaginar como seria a trilha sonora de um dos momentos mais controversos da história da humanidade.

Abaixo, uma seleção das imagens de Elena Filatova que inspiraram essa seleção musical. Recomendo ver as imagens enquanto se escuta a trilha para tentar “sonorizar” os ambientes retratados.

As fotos que estão publicadas nesse post foram escolhidas mais pelo impacto inicial que tive ao vê-las em 2002 e pelo seu ineditismo como registro fotográfico do que pela qualidade técnica ou artística. Para ver fotos atuais e de melhor qualidade da cidade de Pripyat e da Usina de Chernobyl, clique aqui.

Audio clip: Adobe Flash Player (version 9 or above) is required to play this audio clip. Download the latest version here. You also need to have JavaScript enabled in your browser.

Playlist:

01. Dimitri Shostakovich / Chamber Symphony for Strings, OP. 110A – Allegro Molto (Attacca)
02. Threnody Ensemble / Tharoman (Former Valerie White) Part II
03. The Cinematic Orchestra / All That You Give
04. Henry Cowell / II High Color
05. Maurice Pavel / Gaspard de la Nuit (Le Gibet)
06. Dimitri Shostakovich / Chamber Symphony for Strings, OP 110A – Largo
07. Harold Budd with Zeitgeist / Pantomime
08. Karlheinz Stockhausen / 53 20
09. Nathaniel Merriweather / Strokers Ace
10. Harold Budd with Zeitgeist / Breathless
11. Henry Cowell / Hero Sun
12. Morton Feldman / Only
13. Harold Budd / The Room (Fila Brazilla Mix)
14. Karlheinz Stockhausen / 29 53
15. Henry Cowell / Exulation
16. Morton Feldman / Voice, Violin, Piano
17. John Cage / In the Name of the Holocaust

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Foto: Vivo (Ben)

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As fotos publicadas nesse post são de autoria de Elena Filatova, exceto às imagens de arquivo e as devidamente creditadas aos seus autores.

Como pensar design além do design, uma palestra

novembro 3, 2010 by isotipo.labs · Leave a Comment 

Em setembro de 2010 fui convidado a ministrar uma palestra para os alunos do último período do lendário curso de design gráfico na Universidade Estadual de Minas Gerais a convite do professor Cláudio Santos. Essa palestra fez parte de uma série de conversas entre profissionais do mercado com os alunos da disciplina de Design e Novas Mídias, onde o foco era mais trocar experiências distintas da prática do design do que mostrar novas teorias ou algo do tipo. Como a minha trajetória de designer era, de certa forma, errática do ponto de vista tradicional, a conversa seria interessante pois poderia apresentar aos alunos, através da minha história, as enormes possibilidades que o design oferece além do clássico destino da disciplina de dar forma à função.

Foram quase 6 horas de conversa, dividida entre dois turnos, onde apresentei desde da minha iniciação como um “designer informal”, até questionamentos que venho feito a tempos a partir da ideia da commoditização do deisgn, onde o uso de ferramentas e softwares parecem ser mais importantes para uma grande maioria dos novos designers do que simplesmente o parar e pensar qual o objetivo, o desígnio da profissão.

Durante muito tempo venho questionando o design puro e simples, subjulgado como uma disciplina secundária, engolida e canibalizada pelas grandes agências de comunicação que a utiliza mais como uma ferramenta de replicação de campanhas publicitárias do que objeto fundamental na construção e consolidação de uma ideia, e até dos próprios designers, que devido a um fordismo sem precedentes do mercado, acabam sendo obrigados a se especializarem em softwares de 3D ou de edição de imagens, abandonando assim sua função primária de pensador e criador de algo resistente ao tempo e relevante para as marcas ou até mesmo para a sociedade como um todo. Claro que existem vários estúdios de design – aqui mesmo no Brasil – onde essa antropofagia desproporcional não é utilizada, mas mesmo assim um projeto de design puro e simples ainda tem seu valor pouco reconhecido, tanto financeiramente quanto como peça fundamental para a construção de qualquer projeto definitivo.

Com essas provocações iniciais, tentei apresentar meu início como um designer  “informal” e de como sempre insisti em olhar e sentir a profissão por diversos outros meios, além dessa nova história que cada vez mais me aprofundo e me apaixono que é  construção da imagem de países, cidades e lugares através de um design mais pensador e planejador do que apenas executor.

Abaixo disponibilizei o PDF do keynote apresentado para os alunos. Talvez ele sozinho não funcione para contar tudo aquilo que conversamos por lá, mas ilustra bem o que construí no meu imaginário como ‘designer’, desde a minha iniciação no exercício de observar – o que considero a ferramenta mais importante para quem quiser se atrever a submergir na profissão – através da música e seus fabulosos vinis, à inevitável influência do lugar de onde você nasceu na construção do seu imaginário visual e filosófico, contando um pouco a minha passagem pelas “grandes” agências de propaganda onde a promessa de trabalhar com design se transformou em uma produção em massa acéfala, não esquecendo as rupturas e pausas compulsórias (e necessárias) da vida, a alguns exemplos de trabalhos executados durante esse período até a descoberta de novas possibilidades e a reinvenção da profissão através de novos conceitos e formatos de trabalho, conciliando – principalmente – pensamento e estratégia com pessoas de disciplinas distintas para construir projetos cada vez mais concisos e resistente ao implacável tempo.

É bom deixar claro que boa parte das peças mostradas nessa apresentação cumprem o simples papel de ilustrar um argumento ou discurso pertinente ao assunto em questão do que colocá-los como de minha autoria. Muitos desses trabalhos apresentados foram feitos em equipes da qual fiz parte e, alguns, sequer teve alguma participação minha, mas de uma forma ou outra estive envolvido.

Muitos desses trabalhos os apresento mais por representar tudo aquilo que NÃO acredito como um trabalho de design do que como uma referência ou um portfólio de trabalho.

Pindorama Remix @ Casa Brasil Joanesburgo

agosto 20, 2010 by isotipo.labs · Leave a Comment 

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Um dos grandes projetos da Embratur para a divulgação do país durante a Copa da África do Sul de 2010 foi a criação da Casa Brasil / Brasil Sensational Experience, um espaço de 2900 metros quadrados e 8 ambientes temáticos construído em Joanesburgo, África do Sul, com o objetivo de mostrar um Brasil moderno e continental, onde foram apresentadas várias facetas da cultura, da tecnologia, da econômia, do turismo e da identidade nacional.

Dos vários eventos que aconteceram durante os quase 30 dias em que o espaço ficou aberto ao público da Copa do Mundo, a divulgação das cidades-sede da Copa de 2014 através de performances artísticas, multimídias e sensoriais foi um dos mais concorridas. Para representar as cidades da região Sudeste onde acontecerão jogos do mundial em 2014 – Belo Horizonte, Rio de Janeiro e São Paulo -  o coletivo multimídia mineiro F.A.Q foi convidado a reinterpretar essas cidades através de uma experiência audiovisual inovadora. Entitulado de Pindorama Remix, a apresentação foi feita no dia 24 de julho para uma platéia de mais de 200 pessoas onde imagens e músicas icônicas e originais da região foram reprocessadas e executadas ao vivo.

Como parte da argumentação e da construção do projeto, a isotipo.labs foi convidada a escrever um breve texto/artigo defendendo a importância do uso de novas tecnologias para a divulgação e consolidação de uma cultura nacional contemporânea, desvinculada de esteriótipos e clichês já tão empregnados no imaginário mundial e onde as várias identidades brasileiras seriam enaltecidas.

Abaixo, a íntegra do artigo usado como argumentação para o projeto. Para imagens de bastidores do evento, acesse o Flickr da Voltz Design, um dos integrantes do coletivo F.A.Q

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Em busca das identidades do Brasil

Talvez o Brasil esteja vivendo o melhor momento em toda sua história para a consolidação positiva de sua imagem e de suas diversas identidades, longe dos clichês e estereótipos já estabelecidos no imaginário mundial. A ideia de um país festeiro, terra do futebol e do samba, onde a alegria sem causa é a palavra de ordem, conserva uma imagem nacional que, apesar de também ser verdadeira, acaba por ser generalizante, ofuscando outras áreas produtivas e culturais, inovações e diversas atividades que produzimos por aqui. O Brasil hoje é um país moderno, forte, que busca reconhecimento e relevância mundial através de suas ações políticas e nos seus produtos e serviços, mas ainda é na cultura e no seu povo a maior fonte de produção para emanar essa imagem tão desejada.

Sede dos dois principais eventos mundais, a Copa de 2014 e as Olímpiadas de 2016, o Brasil terá a oportunidade única de mostrar quem de fato é, através da nossa cultura – uma monumental miscigenização que formou esse povo novo que é o brasileiro-, que nos torna únicos no cenário internacional. Alguns importantes esforços já estão sendo feitos para revelar e imprimir a nova alma brasileira através, principalmente, da arte e da tecnologia, mas sem se esquecer de suas raízes históricas e tradições culturais, tão importantes para a nossa formação como sociedade e nação. O projeto Pindorama Remix é um desses exemplos. Com o desafio de apresentar as três maiores cidades da região Sudeste -, o coletivo artístico multimídia F.A.Q tem a importante missão de mostrar a  diversidade e pluraridade dessas várias “identidades” brasileiras através de uma performance onde a especificidade de cada região é destacada

A inusitada e não-convencional linguagem áudiovisual do F.A.Q, onde símbolos e ícones da região sudeste serão interpretados, processados e manipuladas ao vivo, associada ao caráter tecnológico e ao ineditismo de sua apresentação – uma clara analogia as características inovadoras das cidades representadas – em um evento como a Casa Brasil durante a Copa da África do Sul, frequentado por um público de distintas nacionalidades, será uma importante ferramenta para a promoção e divulgação de um Brasil cada vez mais contemporâneo, aberto ao mundo mas sempre valorizando aquilo que lhe é mais importante: a cultura nacional, desvinculada de maneirismos arcaicos e ultrapassados.

Gustavo Santos é designer com especialização em Relações Internacionais pela Universidade Belas Artes de São Paulo, editor e curador da TimeSheet Magazine, revista eletrônica voltada para a discussão e a produção de arte e design contemporâneos e do site isotipo.labs, centro de discussão e pesquisa sobre Nation e Place Branding, além de questões de identidade cultural e imagem nacional. Publicou o livro Nation Branding: Construindo a Imagem das Nações pela isotipo.labs.

Nation Branding, o livro

março 10, 2010 by isotipo.labs · 3 Comments 

Nation Branding Book

Nation Branding Book

Nation Branding Book

Nation Branding Book

A isotipo.labs inaugura, com o livro Nation Branding: Construindo a Imagem das Nações, o projeto de uma mini-editora experimental focada em temas já bastante discutidos nesse site como branding de países, cidades e regiões, identidade cultural, gov 2.0, urbanismo e cidadania e discussões sobre o papel do design e do branding no desenvolvimento econômico e social das regiões onde essas ferramentas são aplicadas. A ideia é muito simples: buscar conteúdo em língua portuguesa sobre esses temas e disponibilizá-lo tanto na versão digital gratuíta quanto em versão impressa – vendidos sob demanda – tentando assim iniciar uma bibliografia em língua portuguesa sobre esses temas, que cada vez são mais evidentes nas discussões nacionais e internacionais, mas com conteúdos quase nulos em terras brasileiras.

O primeiro lançamento desse projeto, Nation Branding: Construindo a Imagem das Nações, é um breve panorama sobre o tema, voltando desde a fundação dos Estados modernos, no séc XVI, até suas aplicações práticas nesse conturbado século XXI. Escrito por Gustavo Santos, designer com espcialização em Relações Internacionais, o livro, concebido a partir de uma monografia para o curso de Relações Internacionais e como prévia para uma tese de mestrado, tem como objetivo apresentar o tema tanto para estudiosos do universo das Ciências Políticas e Sociais quanto para profissionais de comunicação de uma forma suscinta, clara e inédita, já que ainda não existe literatura em língua portuguesa sobre o assunto. Para maiores informações sobre o conteúdo do livro, clique aqui, e para saber mais sobre o autor, clique aqui.

Em breve, o conteúdo da primeira publicação da isotipo.labs poderá ser lido na íntegra aqui no site ou pelo Issuu. Para os interessados em uma cópia impressa, basta acessar o Blurb, e fazer seu pedido online.

Nation Branding, um panorama

fevereiro 19, 2010 by isotipo.labs · Leave a Comment 

Post originalmente publicado em: December 8, 2009

Durante quase três anos mergulhei nesta nova disciplina chamada Nation Branding como objeto de pesquisa para o curso de Relações Internacionais e para um projeto de mestrado. Até então, pouco se ouvia falar sobre o assunto e a principal associação feita tanto por leigos quanto por pessoas vinculadas ao universo das Relações internacionais e da Comunicação era que Nation Branding se resumia a uma simples e prosáica propaganda política. Já imaginava que esta não seria a resposta, então resolvi me aprofundar, o que me levou, além do projeto acadêmico, a criação desse site para a discussão e pesquisa de ações ligadas ao tema.

Depois de dezenas de livros, publicações, seminários, artigos, discussões, conversas, críticas e observações de experiências práticas, a resposta não poderia ser outra. O caminho da construção ou reconstrução da imagem de países, cidades, regiões ou lugares é um processo extremamente complexo e demorado, envolvendo disciplinas tão diversas como Antropologia Cultural, Ciência Política e Comunicação além da confluência de vários setores de uma sociedade como ministérios, secretarias de governos, sindicatos patronais, associações civis e a iniciativa privada.

Resumir um projeto de Nation Branding como propaganda política é de uma superficialidade sem precedentes. E para tentar argumentar contra esse senso comum, lastreado em teorias de diversas áreas do conhecimento, resolvi desenvolver uma visão geral do assunto, sobrevoando desde suas referências históricas até os resultados e as consequências de suas aplicações nas sociedades contemporânesa. O resultado é uma introdução ao tema, inexistente em língua portuguesa, que irá guiar minhas pesquisas para  projeto de mestrado, onde irei me aprofundar um pouco mais.

Abaixo, disponibilizei a apresentação usada como apoio para a defesa do tema. Em breve estará disponível também uma versão digital para download do trabalho escrito, que será editado em formato de livro através do projeto embrionário de uma mini-editora com o selo isotipo.labs, destinada a vasculhar esse tema e seus subconceitos como Public Diplomacy, Place Branding, Gov 2.0, Sociedade 2.0, Soft Power, DesignCities, Economia Criativa, etc.

Made in China

janeiro 25, 2010 by isotipo.labs · Leave a Comment 

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Em época de Olimpíadas, nunca o foco esteve tão direcionado para a China como agora, o gigante asiático que cresce a passadas largas baseado em um modelo político-econômico controverso, onde  o controle da sociedade e dos meios de produção é a chave para o crescimento vertiginoso.

Mas, o que é essa China que tanto lemos e vemos sobre? Sua poluição descontrolada, seus novos-ricos cada vez mais vorazes, sua fome insaciável pelo desenvolvimento a qualquer custo e que ameaça gigantes antes intocados com Estados Unidos e União Européia? Que imagem tem essa nova China, que a pouco mais de 50 anos milhões de pessoas morreram de fome em prol do discurso de revolução cultural coletivista e que hoje, a fusão de um Estado comunista, reacionário e ditatorial mas baseadas em doutrinas de um capitalismo extremamente agressivo e predador, cria um mosaico extremamente ambíguo em um mundo onde a postura do politicamente correto, mesmo que só na retórica, é a tônica de vez. O que significa Made in China hoje no mercado global de marcas e países?

Atualmente o termo Made in China já não tem a mesma reação negativa como tempos atrás. A China do século XXI possui uma excelência industrial e tecnológica que mantém a qualidade exigida pelos consumidores globais. Made in China está muito mais associado a um produto de baixo preço do que necessariamente de baixa qualidade, apesar dos artigos de 1,99 ainda lutarem contra essa tendência. Para um hiperconsumidor, para citar Gilles Lipovetsky, a procedência de um produto não é mais um determinante de qualidade desse produto, e sim a marca que este produto carrega.

Então é insignifcante para um hiperconsumidor se uma bolsa ou um tênis foram produzidos na China ou Indonésia se tiverem a chancela de uma Louis Vuitton ou Nike. Ótimo então para as grandes marcas, que procuram sempre um pólo industrial de mão-de-obra barata e que consigam produzir em escala global. Mas o quanto de fato é interessante para a China esta atuação meramente coadjuvante de produtora em um mercado global cada vez mais competitivo? Até mesmo a China terceriza sua produção em países com mão-de-obra ainda mais baratas, como a Indonésia, Vietnã, Bangladesh, Tailândia. A reviravolta da China é tentar virar um pólo não só de produçãoo barata de grandes empresas ocidentais e sim de estabelecer um padrão de qualidade para seus próprios produtos e serviços, assim como fez o Japão pouco mais de 20 anos. Estabelecer então o que vários teóricos chamam de COO (Country of Origin) para sua produção é um dos maiores desafios que a China enfrenta para tentar mudar sua imagem de vilão sem escrúpulos no mercado global.

Para a China não é o suficente produzir em série quase toda a produção mundial e ser reconhecida como um país que passa por cima de qualquer preceito de direitos civis, humanos, ambientais e comerciais. Atitudes de dumping, violações de direitos humanos, desprezo pelo meio-ambiente, censura, controle da mídia entre outras “pequenos pecados ocidentais” ainda são mais visíveis do que a alta tecnologia chinesa para construção de edifícios e seu avanço na nanotecnologia.

E as Olímpiadas de 2008 parece ser o melhor palco para que essa mudança de imagem possa acontecer. Mas depende muito mais de ações concretas do país do que apenas transformações comésticas. Ainda está longe o dia onde pegaremos um produto com o selo Made in China e automaticamente iremos associar a uma imagem de qualidade inquestionável. Até lá, Made In China ainda vai nos remeter a imagens ambíguas de artificialidade e crescimento descontrolado.