isotipo_lugares #006 // Pequim

maio 31, 2011 by isotipo.labs · Leave a Comment 

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A CAPITAL DO NORTE

Texto e Imagens: Patricia Galves Derolle*

Não é à toa que a China é considerada um gigante . Tudo a seu respeito tem proporções consideráveis, desde sua geografia até o ego de seus governantes. É um país de contrastes, onde o muito antigo encontra o mais moderno e ambos convivem cordialmente. Por estes e tantos outros adjetivos resolvi desvendar uma parte dos mistérios desta terra. Aqui conto minha viagem para Pequim: a capital do norte.

China

Cheguei a Pequim 2 dias depois do desastre no Japão. Alguns tremores foram sentidos em Xangai e outros poucos em Pequim, mas nada de grave aconteceu na China, que, mesmo não tendo bons relacionamentos com o Japão, enviou ajuda humanitária especializada para lá. Os jornais locais transmitiram todo o desenrolar da situação e fizeram questão de enfatizar a ajuda chinesa aos nipônicos.

A grande maioria dos canais pertence à rede estatal CCTV, que controla todas as programações. O canal de notícias desta mesma rede, além de ser em mandarim, também é transmitido em inglês. Os canais estrangeiros, como HBO, CNN, BBC, entre outros, têm atraso de ao menos 5 minutos da programação original, por terem que passar por censura, ou seja, se estes mesmos canais falarem mal da China ou se forem contra algo que a China acredita, a censura se ocupa da retaliação. Esta falta de informação, ou informação desviada, faz com que o sentimento nacionalista chinês seja elevado à décima potência.

China

Embora Pequim tenha sido o palco das Olimpíadas de 2008, ainda é muito difícil se comunicar em inglês. As placas de trânsito, bem como os lugares turísticos, são bilíngues, muitos menus de restaurantes também, mas a população ainda encontra dificuldade em entender e se expressar no idioma estrangeiro. Quando conseguem ultrapassar esta barreira, falam com frases prontas e decoradas, como se tivessem estudado um curso intensivo de inglês “made in China”.  Claro que isto não se aplica a todos os lugares de Pequim. Longe disso está a rua Wangfujing, o centro de compras chique de Pequim. Lá se pode encontrar tudo o que está na moda, com preços mais altos até mesmo que na Europa, atendendo às novas classes média e alta.

Na direção oposta, estão o Pearl Market e o Silk Market. Nestes mercados lotados de estrangeiros, encontra-se todos os tipos de bugigangas, desde canetas Mont Blanc falsas a videogames Wu (sim, o Wii falso se chama Wu lá), de paletós Giorgio Armani a bolsas Dolce and Gabanna. É o paraíso dos pechinchadores, ou o inferno na terra daqueles que não gostam de negociar. Para se conseguir um bom preço, ou um preço justo, é necessário negociar, e muito. Os paulistanos que estão lendo este relato sabem do que estou falando, pois o cenário é o mesmo da Galeria Pajé, na nossa querida São Paulo.

O outro lado da China que me levou a realizar esta viagem foi a sua impressionante história, hoje observada em diferentes pontos de Pequim. Como é sabido, ao norte da cidade pode-se visitar uma parte da Grande Muralha, no centro estão a Cidade Proibida, a Praça Tian’anmen e o Museu de História Nacional, e, espalhados, estão todos os outros museus e galerias de arte, bem como os templos budistas e maoístas, tudo organizado em harmonia com os princípios do Feng shui.

A Grande Muralha é uma aula de história viva. A sua parte mais conservada foi a que visitei, com pedras de calcário originais, postas a mão uma a uma, formando caminhos e escadas que contornam a superfície da montanha. As torres entre os caminhos eram utilizadas como área de vigilância e transmitiam sinais de fumaça, entre outras formas, para alertar as torres vizinhas de algum perigo. A Muralha é de tirar o fôlego, bem como subir suas rampas inclinadíssimas com o vento que faz lá em cima. Diz a lenda que quem consegue subir é um herói. Talvez eu seja uma meia-heroína, já que tive ajuda do teleférico no começo, mas depois juro que subi tudo sozinha! Era impressionante ver os turistas chineses, já idosos, subirem a muralha sem reclamar. Eles iam devagar, sem apoiar nas beiradas, passo a passo. Via-se no rosto deles o orgulho de estar visitando uma parte histórica de seu país.

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A Cidade Proibida é outro lugar impressionante. Era a residência do imperador e de suas 3 mil concubinas na dinastia Ming; é um complexo que servia sobretudo como centro político da época. Várias construções interessantes estão localizadas lá; contudo, em minha opinião, a mais esplêndida é a Galeria da Suprema Harmonia.

Além de ser muito bem decorada por dentro, era o lugar mais importante da Cidade Proibida, pois era lá que o imperador encontrava as pessoas mais respeitáveis. A Galeria possui dez estatuetas em seu telhado, demonstrando que é uma construção de alto escalão. A quantidade de estatuetas nos telhados das construções mostrava quão importante o respectivo lugar era.

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A Cidade possui diversos portões de entrada, mas o principal é o Portão do Céu, e é nele que se encontra a famosa foto do Mao Tse Tung. Já do outro lado da larga avenida, encontra-se a maior praça do mundo: a Tian’anmen. Rodeada pelo Parlamento chinês, pelo Museu de História Nacional e pelo Memorial do Mao, é cheia de turistas (chineses e estrangeiros) e policiais. Para entrar nesta praça pública, é necessário passar por guardas devidamente uniformizados e por detectores de metais, além de colocar a bolsa em uma esteira de raio-x.

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Foi nesta praça que, pela primeira vez, senti-me uma verdadeira estrangeira. Camponeses e pessoas de outras províncias da China me viam como uma pessoa estranha/diferente, pois eu não era asiática. Eles apontavam, olhavam de perto, riam e eu não entendia nada. Meu guia, o imigrante mongol Tony, disse que eles eram pessoas bem simples, que nunca viram estrangeiros na vida, nem mesmo na televisão. A experiência foi esquisita, mas boa, e que me fez refletir sobre as influências ocidentais no mundo, ou, pelo menos, em partes do mundo.

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Depois da visita ao Museu de História Nacional, comecei a entender o exacerbado nacionalismo chinês. A história, pelo menos no museu, é contada pela ótica chinesa comunista, que expõe claramente os heróis chineses, a influência de Marx e Engels, um grandioso Lênin, bem como os motivos de se orgulhar de um país como a República Popular da China. Lá, as chamadas “nações imperialistas” não têm vez, são más. Ver os chineses lerem todos aqueles textos com olhos atentos, concordarem e tirarem fotos com todas as estátuas do Mao foi uma experiência indescritível.

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Na mesma semana em que estive em Pequim, o Primeiro-Ministro chinês Wen Jiabao anunciou ser inevitável a China se abrir politicamente, pois a lógica do mundo estava mudando, mesmo em seu próprio país. Entretanto, algumas semanas depois, este mesmo governo prendeu a artista e ativista social Ai Weiwei.

Em relação à cena artística de Pequim, visitei o bairro chamado 798 Art Zone, que antigamente funcionava como um complexo industrial e hoje passou a abrigar diversas galerias, estúdios fotográficos e lojas artesanais. É um lugar alternativo que combina tudo o que é novo e moderno, um lugar que dita influências na moda e nas artes chinesa e mundial frequentado por pessoas cool. Por ser um lugar tão vivo, parece que Pequim respira tranquila lá, sem censura e sem vigilância.

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A China é um país gigante que acredita em seus ideais, tem enraizado em si tradições milenares e é um ator internacional forte e competitivo. É uma das maiores economias do mundo, mas, ao mesmo tempo, possui problemas de direitos humanos e meio ambiente. É um lugar onde os paradoxos vivem harmoniosamente, em um caos organizado. E Pequim é o palco político e artístico de toda a China, peças essenciais do país. Xie xie, Beijing!

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* Patricia é formada em Relações Internacionais pela Universidade Belas Artes de São Paulo. Trabalhou no Ministério das Relações Exteriores em São Paulo, no Consulado Brasileiro em Genebra, Suíça e na Missão Brasileira na ONU, também em Genebra. Atualmente é analista de tecnologia na União Internacional de Transportes Terrestres, na mesma cidade. Mora na Suíça desde 2009.  Seu e-mail é patygd@terra.com.br.

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