Todos os olhos
fevereiro 15, 2011 by isotipo.labs · Leave a Comment
Dizem por aí que agora é a vez do Brasil.
Nunca antes na história desse país tanto se falou e se acreditou em nós. Pelo menos através de outros olhos, os dos estrangeiros. Apesar de abismos sociais dignos de um 8º mundo e absurdos saídos de uma ficção científica qualquer, o Brasil parece estar tentando botar a casa em ordem. E, de certa forma, isso está reverberando por outras bandas. Talvez seja pela estagnação européia ou pela crise interminável nos Estados Unidos, mas de fato o Brasil é o novo eldorado dos colonizadores 2.0. Um interesse sem precedentes por nós, meros sul-americanos sem pecados, parece dominar o chamado mundo sem fronteiras. Uma espécie de pulga atrás da orelha, se perguntando: afinal de contas, o que acontece lá embaixo da linha do equador?
Inevitavelmente o Mundial de Futebol de 2014 e as Olimpíadas de 2016, além de outros detalhes sem importância, são os grandes responsáveis pelo nosso protagonismo mundial, mas também sabemos que eventos esportivos, apesar de globais, sozinhos não são o suficientes para manter uma audiência por muito tempo. Precisa ter lastro, algo que mantenha uma certa relevância. Não sabemos ainda se nossa ribalta é efêmera, mas existe algo em nosso ar e em nossa água que começa a fazer sentido além-mar. A Wallpaper celebra a nossa cultura, nosso design e nossas cidades. A Monocle festeja nossa diplomacia. O Le Monde desvenda nossa história. A The Economist preveu nossa decolada e nosso protagonismo numa América Latina cada vez mais forte, apesar de algumas democracias frágeis. Enfim, todos falam e todos querem o Brasil. Mas o que querem todos? Um pedaço do bolo, claro. Não é novidade que o Brasil de 2011 realmente deu alguns passos em direção à algo maior, ao contrário do resto do planeta, exceto a China, obviamente. O indíce de confiança aumentou e o Brasil, apesar de tudo, se apresenta como um país um pouco mais sério. E seriedade – mesmo na mais profunda alegria - é o mínimo que se espera de qualquer região que pretende construir uma imagem de relevância.
Me lembro de uma palestra onde alguém disse que o Brasil sempre foi conhecido como o país dos 3 S’s: Samba, Sex, Soccer. Desnecessária a tradução. Dizem que a diretriz do Governo Federal para o Ministério das Relações Exteriores e para a APEX – orgãos responsáveis pela promoção da imagem nacional no exterior -, para a construção de nossa nova imagem é à partir do anagrama TOTAL: Tecnologia, Organização, Trabalho, Autenticidade e Lei. Dizem também que ordem não combina com progresso. Mas, num momento raro de ufanismo e otimismo, quem sabe realmente não chegaremos lá? Nos resta saber a nós, brasileiros, onde é lá.
Bom, alguém acredita que já estamos lá. Os pragmáticos ingleses do Financial Times chegaram primeiro e já estão contando para todos os lados que agora o lugar é aqui. Nada de China, Índia e Rússia, RIC’s que sem o nosso B não tem sonoridade nem bossa alguma. Com módicos £4,000 (libras!) anuais você, investidor internacional, pode saber tudo o que a baiana tem e aprender o caminho das pedras para faturar alguns milhões por aqui. Lançado em janeiro de 2011, Brazil Confidential é o novo serviço da Financial Times que consiste em uma asisnatura anual (aquelas libras na linha anterior) para ter informações privilegiadas, análises e insights sobre – segunda a publicação – o mais excitante mercado emergente do mundo.
Já em dezembro de 2010, nossos irmãos da América do Norte começaram a se incomodar com o nosso braulho. O celebrado 60 Minutes da CBS dedicou alguns bons minutos de sua programação à tentar descobrir se somos um país sério pois, afinal de contas – segundo eles – tivemos o político mais popular do mundo e estamos vertiginosamente em direção a ser a 5ª maior potência econômica mundial. E para não ficar no achismo, Eike Batista, Eduardo Bueno – o historiador – e Lula foram os escolhidos para contar essa pequena história de uma revolução econômica e social em curso, que levará o Brasil à outros níveis.
Mais uma vez somos a cereja do bolo. Uma horda estrangeira está chegando, buscando insacialvelmente um pedaço do nosso quitute econômico. Cabe a nós divdir esse bolo antes da chegada e, quem sabe, deixar a cereja para eles.
A hora de pensar, construir e fazer um país sério é agora. Um país sério, mas sem esquecer o carnaval, o futebol e o samba afinal, Deus é brasileiro.
Abaixo o vídeo do 60 Minutes sobre a epopéia brasileira.
isotipo_lugares #003// Salvador
novembro 10, 2010 by isotipo.labs · Leave a Comment

A ANGOLA BRASILEIRA
Texto e Imagens: Gustavo Santos*
Salvador não é bem um lugar tão diferente assim. Na verdade é destino quase certo à turistas estrangeiros que querem conhecer – in loco - todo o calor e a alma do brasileiro e, de certa forma, o berço do Brasil como nação. Mas, para mim, Salvador sempre foi tão distante quanto o Tajiquistão, apesar de nutrir uma curiosidade antropológica e obssessiva por praticamente todas as regiões e culturas do mundo. Mas, de fato, sonhava mais em visitar o tal Tajiquistão ou qualquer outro país com o sulfixo ão em conflito permanente da Ásia Central do que passar uma temporada em Salvador. Talvez se fosse eu algum cidadão dessas terras longínquas, teria de fato algum interesse por Salvador. Mas, sendo brasileiro, esse interesse fica difícil.
Salvador sempre representou, pelo menos pela sua cultura mainstream, o oposto de tudo que acreditava. Mas, por questões profissionais, fui obrigado a ir em pleno carnaval de 2009. O resultado é que, muito por culpa de certas, óbvias e inevitáveis belezas naturais e particularidades locais, Salvador se mostrou um pouco mais interessante do que imaginava, mas mesmo assim, não conseguiu mudar muito minha percepção.
Mas vamos ao relato.

Salvador! Terra de todos os Santos. África brasileira. Essa foi a primeira impressão que tive ao chegar à capital baiana. Não conheço Angola muito menos sua capital Luanda, mas no meu imaginário acredito que seja algo bem próximo disso, em todos os sentidos: desde sua cultura e suas belezas até suas mazelas. Infelizmente Salvador não é uma cidade deslumbrante quanto imaginava. Ou o que me faziam imaginar, apesar do meu inseparável senso comum sempre lutar contra.
Tenho como referência de cidades litorâneas Rio de Janeiro, Lisboa, Barcelona, etc. Sempre imaginei Salvador algo como uma Rio de Janeiro envelhecida ou talvez uma Lisboa – mais pobre, claro – pela sua tradição colonial, seus morros e elevadores. Mas não. O que vi foi uma Salvador mal cuidada, quase abandonada e despreparada para receber uma quantidade colossal de turistas, sua principal fonte de renda. A Salvador que vi era feia, que não preserva sua história arquitetônica e que praticamente se vende para grandes empresas que, ao invés de investirem na conservação e melhoria urbana, patrocinam de forma estupidamente efêmera e predadora postes e orelhões em formatos de côcos, atabaques e bambus.

Como fui à trabalho e sabia que iria ficar preso cerca de 20 horas por dia no mesmo lugar, usei o escasso tempo que tinha para tentar conhecer o mínimo da cidade e tentar tirar essa imagem estranha que tive ao chegar. Então, nada mais natural que ir conhecer o centro velho e suas peculiaridades. Num enebriante calor de quase 45 graus, me aventurei pelas estreitas avenidas da cidade em busca de um taxi. Encontrei um de um senhor simpático e falastrão, devoto de todos os santos e orixás possíveis, que, ironicamente, me levou direto ao inferno dos turistas que é o tal do centro velho.

Assustado mas curioso, fui arrastado pela multidão em silêncio na hora do rush até o Elevador Lacerda, que é o caminho mais “fácil” para o Pelourinho. Por módicos 0,05 centavos de real você gasta 30 segundos em um elevador apertado e sem luz que parece a Estação da Sé em horário de pico e com blecaute. Ao chegar na entrada do tal do Pelouro, você é atacado por hordas e hordas de vendedores que te oferecem como brindes colares de côco e pulserinhas do Senhor do Bonfim para que, numa tentativa frustrada, você não consiga dizer não aos 40 reais que vão lhe pedir em troca de colares ditos de prata com imagens da região. Impossível dizer não. Mesmo que o não é tudo o que você mais queira dizer.
Uma curiosidade: há vários códigos locais entre os vendedores: num momento ímpar de benevolência, te avisam que se você usar a tal da pulseira do Senhor do Bonfim, nenhum outro vendedor vai pular em cima de você. É uma espécie de pulseira VIP do mercado informal, que quando você a mostra para os outros vendedores que correm para te abordar, automaticamente desistem de você ao ver seu braço com uma pulseira fucsia. Funciona bem. Devem pensar que o primeiro já lhe vendeu todo o estoque de berimbaus de marcassita do ano, e que você não é mais útil. Outro momento de extrema gentileza entre nossos amigos é que todos, sem excessão, lhe dão recomedações dizendo que é melhor não seguir por este ou aquele caminho. Impossível se sentir a vontade em uma cidade em que você é literalmente marcado através das acesas pulseirinhas do nosso Senhor do Bonfim e recomendado a não andar por esta ou aquela rua.
Já o Pelouro é, como toda cidade vista até então, muito menos que eu imaginava. Várias casinhas de um colorido triste, com igrejas em quase ruínas, com vários, vários, muitos e milhares vendedores de correntinhas de prata e afoxés em geral. Esse foi o momento que mais tive medo em minha aventura, pois quase fui “convencido” a fazer um tererê em meus poucos cabelos. O Pelourinho em si, que nada mais é um tronco onde os negros eram espancados e chicoteados, está lá. Intacto. Muito mais bem preservado do que todas as 365 igrejas da cidade (sendo que eu só vi umas 15), todas fechadas pois, afinal de contas, é carnaval. Meio que não combina.
Logo fui ao Mercado Modelo. Achei que fosse um mercado de iguarias da culinária local. Nada. Ratoeira para turista. E das fortes. Uma mega feira hippie de artesanatos duvidosos. Nada realmente novo (ou antigo), interessante e relevante. Nada da cultura local, apenas lojas de chapéus Panamás feitos no sertão da Bahia e mais afoxés. Procurei lojas de umbanda e orixás mas nem isso encontrei. Apenas algumas imagens estranhas. Acho que turistas não gostam desse sincretismo regional. Talvez esta parte não revelada seja a mais interessante de Salvador. Talvez essa Salvador esteja escondida, preservada do turistas comum, o que de fato é uma pena.

Isso tudo foi sentido e visto em menos de 4 horas, ou seja, frequentei a superfície. Talvez Salvador seja mais que isso. Talvez não. Talvez não conheça mais que isso, afinal estava lá pelo carnaval, mas não como um folião, e sim à trabalho.
Mas foi a Salvador que vi no Carnaval que de fato me impressionou. Aquilo sim era algo que não imaginava. E meio que explicava e perdoava tudo. Para aquele formigueiro de pessoas que estavam lá pura e exclusivamente por esse evento, Salvador poderia ser como fosse, nada importava. Aqueles 7 dias eram sentidos como se fossem os últimos de suas vidas, então tudo era ao extremo: a quantidade de gente, o volume da música, os litros de bebidas, o paganismo desenfreado, o nilismo involuntário. Nada mais era importante na vida. Somente aquele momento. Mas não para mim. Mas de fato, para quem se delicia com esse universo, o carnaval é uma espécie de rendenção, uma absolvição e um desapego do bem e do mal, que parece (e deve) ser a melhor coisa do mundo. Definitivamente não era para mim. Aquilo me assustava. Mas era interessante de se ver. Até o segundo dia, apenas. O que era uma experiência absurdamente interessante de se observar, começa a te incomodar porque, além da infinita e contante música em decibéis estratosféricos, a cidade simplesmente não funciona. Ao ponto de ser impossível de sair do Hotel ou de qualquer lugar que esteja à partir das 15hs.


Depois de uma homérica busca, finalmente consegui um taxi que estivesse disposto a me levar ao aeroporto em plena sexta-feira de carnaval, mas sem antes ser questionado e julgado impiedosamente pelo nobre motorista por cometer o crime de sair da cidade numa sexta-feira de carnaval, além de ser coagido de todas formas possíveis e imagináveis a ficar e aproveitar o melhor momento da cidade, devo admitir que uma leve tristeza caiu sobre mim, tentando entender o porque do meu pouco entusiasmo em ficar na cidade, já que algumas dezenas de milhares de pessoas se planejaram o ano inteiro para estar exatamente no local do qual estava saindo, quase que fugido. Senti que essa minha leve tristeza também ficaria na cidade pós-carnaval, onde tudo tentaria voltar ao normal após a exarcebação de um hedonismo sem precedentes. Uma certa nostalgia de uma Salvador que não vivi, mas que foi tão registrada em músicas, literatura, cinema, fotografias e gravadas no meu imaginário, me fez ser um pouco mais compreensivo e resiliente com essa cidade de extremos, que apesar de uma alegria berrante, tem uma tristeza inerente a cada rua e casa mal conservada.
Salvador fixou na minha memória tal como uma Ouro Preto descuidada, uma Lisboa africana no Brasil. Mas algo meio indescritível ficou impregnado. Uma imagem forte – não boa nem ruim – apenas forte. Tal como a passagem de um texto do abolicionista pernambucano Joaquim Nabuco, que aqui cito em um contexto completamente diferente do original, mas que tem uma poética e uma clareza que consegue descrever aquilo que não consegui entender: “… ela povoou-o como se fosse uma religião natural e viva, com os seus mitos, suas legendas, seus encantamentos; insuflou-lhe sua alma infantil, suas tristezas sem pesar, suas lágrimas sem amargor, seu silêncio sem concentração, suas alegrias sem causa, sua felicidade sem dia seguinte.”(1)
Não sei se vou conhecer algum dia outra Salvador, mas por enquanto, esta é a que ficou.

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NOTAS
(1) A citação faz parte do texto “Noites do Norte” onde Joaquim Nabuco (1849-1910), em uma assustadora contemporaneidade, atesta o inevitável destino da sociedade brasileira à escravidão: Abaixo, o trecho na íntegra:
“A escravidão permanecerá por muito tempo como a característica nacional do Brasil. Ela espalhou por nossas vastas solidões uma grande suavidade; seu contato foi a primeira forma que recebeu a natureza virgem do país, e foi a que ele guardou; ela povoou-o como se fosse uma religião natural e viva, com os seus mitos, suas legendas, seus encantamentos; insuflou-lhe sua alma infantil, suas tristezas sem pesar, suas lágrimas sem amargor, seu silêncio sem concentração, suas alegrias sem causa, sua felicidade sem dia seguinte… É ela o suspiro indefinível que exalam ao luar as nossas noites do norte.”
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* Gustavo Santos é designer com formação e especialização em Relações Internacionais pela Universidade Belas Artes de São Paulo. Desenvolve projetos de comunicação e design há 18 anos e teve seus trabalhos publicados e exibidos em festivais e mostras no Brasil, Colômbia, Estados Unidos, França, Holanda e Rússia. É editor e curador da TimeSheet Magazine, revista eletrônica voltada para a discussão e a produção de arte e design contemporâneos e deste site, isotipo.labs, centro de discussão e pesquisa sobre Nation e Place Branding, além de questões de identidade cultural e imagem nacional. E-mail: gustavo@isotipo.com.br
Os pequenos detalhes
fevereiro 19, 2010 by isotipo.labs · Leave a Comment

Logo pela manhã, eis que surge um ótimo exemplo da incoerência e da esquizofrenia que é a percepção da imagem do Brasil para o mundo, até mesmo nos círculos mais bem informados. Venture Beat é um site norte-americano especialziado em tecnologia e inovação. Desde as mais complexas tecnologias até os mais simples e revolucionários aplicativos para web são citados pelo site diariamente em forma de notícias. Em um artigo de 14 de setembro de 2009, o destaque do site foi para uma resenha do sistema de buscas brasileiro Busk, do qual a isotipo.labs é um usuário apaixonado. O texto, extremamente elogioso, coloca o sistema como um grande e possível concorrente ao gigante Google, devido a sua lógica de filtragem mais customizada e a possibilidade de compartilhar suas informações e seus bookmarks com seus amigos. A idéia de fato é revolucionária, mesclando o conceito de busca por palavra-chave com os agregadores de RSS, além de uma contrapartida social necessária onde cada busca realizada pelo sistema, 1g de alimento é doado para instituições de caridades.
A repercusão da notícia espalhada por um site deste porte coloca o Brasil em uma posição a muito tempo almejada: a de criadores de tecnologias altamente criativas e não apenas mais um produtor de commodities e mão-de-obra barata.
Até aí, ótimo. Ponto para o Brasil. E parabéns para o Busk pelo merecido destaque. O problema é que, fora casos isolados como este, a percepção brasileira ainda está enraizada em esteriótipos e clichês – mesmo que seja nos pequenos detalhes – que nada ajuda o Brasil a estabelecer uma imagem de sociedade criativa e de um país moderno.
No mesmo Venture Beat, um outro artigo da mesma data, 14 de setembro, faz uma precisa análise da presença das redes sociais no Brasil, principalmente a concorrência entre o Orkut e Google. Segundo o artigo, o gigante da Google ainda domina o público brasileiro com 22.7 milhões de usuários mas se estagna em sua posição enquanto o Facebook, nos módicos 1.3 milhão de usuários, cresce vertiginosamente. É uma questão de tempo para o Facebook tomar o lugar do Orkut. Mas não é o artigo em si que nos interessa, apesar de valer a leitura, e sim um pequeno detalhe ao lado direito do texto que provavelmente passará desapercebido por grande parte dos leitores: a prosáica foto de uma ‘mulata’, (des) vestida de plumas de pavões e faisões reais em pleno desfile de uma escola de samba qualquer.


