Os pequenos detalhes

fevereiro 19, 2010 by isotipo.labs · Leave a Comment 

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Logo pela manhã, eis que surge  um ótimo exemplo da incoerência e da esquizofrenia que é a percepção da imagem do Brasil para o mundo, até mesmo nos círculos mais bem informados. Venture Beat é um site norte-americano especialziado em tecnologia e inovação. Desde as mais complexas tecnologias até os mais simples e revolucionários aplicativos para web são citados pelo site diariamente em forma de notícias. Em um artigo de 14 de setembro de 2009, o destaque do site foi para uma resenha do sistema de buscas brasileiro Busk, do qual a isotipo.labs é um usuário apaixonado. O texto, extremamente elogioso, coloca o sistema como um grande e possível concorrente ao gigante Google, devido a sua lógica de filtragem mais customizada e a possibilidade de compartilhar suas informações e seus bookmarks com seus amigos. A idéia de fato é revolucionária, mesclando o conceito de busca por palavra-chave com os agregadores de RSS, além de uma contrapartida social necessária onde cada busca realizada pelo sistema, 1g de alimento é doado para instituições de caridades.

A repercusão da notícia espalhada por um site deste porte coloca o Brasil em uma posição a muito tempo almejada: a de criadores de tecnologias altamente criativas e não apenas mais um produtor de commodities e mão-de-obra barata.

Até aí, ótimo. Ponto para o Brasil. E parabéns para o Busk pelo merecido destaque. O problema é que, fora casos isolados como este, a percepção brasileira ainda está enraizada em esteriótipos e clichês – mesmo que seja nos pequenos detalhes – que nada ajuda o Brasil a estabelecer uma imagem de sociedade criativa e de um país moderno.

No mesmo Venture Beat, um outro artigo da mesma data, 14 de setembro, faz uma precisa análise da presença das redes sociais no Brasil, principalmente a concorrência entre o Orkut e Google. Segundo o artigo, o gigante da Google ainda domina o público brasileiro com 22.7 milhões de usuários mas se estagna em sua posição enquanto o Facebook,  nos módicos 1.3 milhão de usuários, cresce vertiginosamente. É uma questão de tempo para o Facebook tomar o lugar do Orkut. Mas não é o artigo em si que nos interessa, apesar de valer a leitura, e sim um pequeno detalhe ao lado direito do texto que provavelmente passará desapercebido por grande parte dos leitores: a prosáica foto de uma ‘mulata’, (des) vestida de plumas de pavões e faisões reais em pleno desfile de uma escola de samba qualquer.

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Made in China

janeiro 25, 2010 by isotipo.labs · Leave a Comment 

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Em época de Olimpíadas, nunca o foco esteve tão direcionado para a China como agora, o gigante asiático que cresce a passadas largas baseado em um modelo político-econômico controverso, onde  o controle da sociedade e dos meios de produção é a chave para o crescimento vertiginoso.

Mas, o que é essa China que tanto lemos e vemos sobre? Sua poluição descontrolada, seus novos-ricos cada vez mais vorazes, sua fome insaciável pelo desenvolvimento a qualquer custo e que ameaça gigantes antes intocados com Estados Unidos e União Européia? Que imagem tem essa nova China, que a pouco mais de 50 anos milhões de pessoas morreram de fome em prol do discurso de revolução cultural coletivista e que hoje, a fusão de um Estado comunista, reacionário e ditatorial mas baseadas em doutrinas de um capitalismo extremamente agressivo e predador, cria um mosaico extremamente ambíguo em um mundo onde a postura do politicamente correto, mesmo que só na retórica, é a tônica de vez. O que significa Made in China hoje no mercado global de marcas e países?

Atualmente o termo Made in China já não tem a mesma reação negativa como tempos atrás. A China do século XXI possui uma excelência industrial e tecnológica que mantém a qualidade exigida pelos consumidores globais. Made in China está muito mais associado a um produto de baixo preço do que necessariamente de baixa qualidade, apesar dos artigos de 1,99 ainda lutarem contra essa tendência. Para um hiperconsumidor, para citar Gilles Lipovetsky, a procedência de um produto não é mais um determinante de qualidade desse produto, e sim a marca que este produto carrega.

Então é insignifcante para um hiperconsumidor se uma bolsa ou um tênis foram produzidos na China ou Indonésia se tiverem a chancela de uma Louis Vuitton ou Nike. Ótimo então para as grandes marcas, que procuram sempre um pólo industrial de mão-de-obra barata e que consigam produzir em escala global. Mas o quanto de fato é interessante para a China esta atuação meramente coadjuvante de produtora em um mercado global cada vez mais competitivo? Até mesmo a China terceriza sua produção em países com mão-de-obra ainda mais baratas, como a Indonésia, Vietnã, Bangladesh, Tailândia. A reviravolta da China é tentar virar um pólo não só de produçãoo barata de grandes empresas ocidentais e sim de estabelecer um padrão de qualidade para seus próprios produtos e serviços, assim como fez o Japão pouco mais de 20 anos. Estabelecer então o que vários teóricos chamam de COO (Country of Origin) para sua produção é um dos maiores desafios que a China enfrenta para tentar mudar sua imagem de vilão sem escrúpulos no mercado global.

Para a China não é o suficente produzir em série quase toda a produção mundial e ser reconhecida como um país que passa por cima de qualquer preceito de direitos civis, humanos, ambientais e comerciais. Atitudes de dumping, violações de direitos humanos, desprezo pelo meio-ambiente, censura, controle da mídia entre outras “pequenos pecados ocidentais” ainda são mais visíveis do que a alta tecnologia chinesa para construção de edifícios e seu avanço na nanotecnologia.

E as Olímpiadas de 2008 parece ser o melhor palco para que essa mudança de imagem possa acontecer. Mas depende muito mais de ações concretas do país do que apenas transformações comésticas. Ainda está longe o dia onde pegaremos um produto com o selo Made in China e automaticamente iremos associar a uma imagem de qualidade inquestionável. Até lá, Made In China ainda vai nos remeter a imagens ambíguas de artificialidade e crescimento descontrolado.