isotipo_lugares #006 // Pequim

maio 31, 2011 by isotipo.labs · Leave a Comment 

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A CAPITAL DO NORTE

Texto e Imagens: Patricia Galves Derolle*

Não é à toa que a China é considerada um gigante . Tudo a seu respeito tem proporções consideráveis, desde sua geografia até o ego de seus governantes. É um país de contrastes, onde o muito antigo encontra o mais moderno e ambos convivem cordialmente. Por estes e tantos outros adjetivos resolvi desvendar uma parte dos mistérios desta terra. Aqui conto minha viagem para Pequim: a capital do norte.

China

Cheguei a Pequim 2 dias depois do desastre no Japão. Alguns tremores foram sentidos em Xangai e outros poucos em Pequim, mas nada de grave aconteceu na China, que, mesmo não tendo bons relacionamentos com o Japão, enviou ajuda humanitária especializada para lá. Os jornais locais transmitiram todo o desenrolar da situação e fizeram questão de enfatizar a ajuda chinesa aos nipônicos.

A grande maioria dos canais pertence à rede estatal CCTV, que controla todas as programações. O canal de notícias desta mesma rede, além de ser em mandarim, também é transmitido em inglês. Os canais estrangeiros, como HBO, CNN, BBC, entre outros, têm atraso de ao menos 5 minutos da programação original, por terem que passar por censura, ou seja, se estes mesmos canais falarem mal da China ou se forem contra algo que a China acredita, a censura se ocupa da retaliação. Esta falta de informação, ou informação desviada, faz com que o sentimento nacionalista chinês seja elevado à décima potência.

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Embora Pequim tenha sido o palco das Olimpíadas de 2008, ainda é muito difícil se comunicar em inglês. As placas de trânsito, bem como os lugares turísticos, são bilíngues, muitos menus de restaurantes também, mas a população ainda encontra dificuldade em entender e se expressar no idioma estrangeiro. Quando conseguem ultrapassar esta barreira, falam com frases prontas e decoradas, como se tivessem estudado um curso intensivo de inglês “made in China”.  Claro que isto não se aplica a todos os lugares de Pequim. Longe disso está a rua Wangfujing, o centro de compras chique de Pequim. Lá se pode encontrar tudo o que está na moda, com preços mais altos até mesmo que na Europa, atendendo às novas classes média e alta.

Na direção oposta, estão o Pearl Market e o Silk Market. Nestes mercados lotados de estrangeiros, encontra-se todos os tipos de bugigangas, desde canetas Mont Blanc falsas a videogames Wu (sim, o Wii falso se chama Wu lá), de paletós Giorgio Armani a bolsas Dolce and Gabanna. É o paraíso dos pechinchadores, ou o inferno na terra daqueles que não gostam de negociar. Para se conseguir um bom preço, ou um preço justo, é necessário negociar, e muito. Os paulistanos que estão lendo este relato sabem do que estou falando, pois o cenário é o mesmo da Galeria Pajé, na nossa querida São Paulo.

O outro lado da China que me levou a realizar esta viagem foi a sua impressionante história, hoje observada em diferentes pontos de Pequim. Como é sabido, ao norte da cidade pode-se visitar uma parte da Grande Muralha, no centro estão a Cidade Proibida, a Praça Tian’anmen e o Museu de História Nacional, e, espalhados, estão todos os outros museus e galerias de arte, bem como os templos budistas e maoístas, tudo organizado em harmonia com os princípios do Feng shui.

A Grande Muralha é uma aula de história viva. A sua parte mais conservada foi a que visitei, com pedras de calcário originais, postas a mão uma a uma, formando caminhos e escadas que contornam a superfície da montanha. As torres entre os caminhos eram utilizadas como área de vigilância e transmitiam sinais de fumaça, entre outras formas, para alertar as torres vizinhas de algum perigo. A Muralha é de tirar o fôlego, bem como subir suas rampas inclinadíssimas com o vento que faz lá em cima. Diz a lenda que quem consegue subir é um herói. Talvez eu seja uma meia-heroína, já que tive ajuda do teleférico no começo, mas depois juro que subi tudo sozinha! Era impressionante ver os turistas chineses, já idosos, subirem a muralha sem reclamar. Eles iam devagar, sem apoiar nas beiradas, passo a passo. Via-se no rosto deles o orgulho de estar visitando uma parte histórica de seu país.

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A Cidade Proibida é outro lugar impressionante. Era a residência do imperador e de suas 3 mil concubinas na dinastia Ming; é um complexo que servia sobretudo como centro político da época. Várias construções interessantes estão localizadas lá; contudo, em minha opinião, a mais esplêndida é a Galeria da Suprema Harmonia.

Além de ser muito bem decorada por dentro, era o lugar mais importante da Cidade Proibida, pois era lá que o imperador encontrava as pessoas mais respeitáveis. A Galeria possui dez estatuetas em seu telhado, demonstrando que é uma construção de alto escalão. A quantidade de estatuetas nos telhados das construções mostrava quão importante o respectivo lugar era.

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A Cidade possui diversos portões de entrada, mas o principal é o Portão do Céu, e é nele que se encontra a famosa foto do Mao Tse Tung. Já do outro lado da larga avenida, encontra-se a maior praça do mundo: a Tian’anmen. Rodeada pelo Parlamento chinês, pelo Museu de História Nacional e pelo Memorial do Mao, é cheia de turistas (chineses e estrangeiros) e policiais. Para entrar nesta praça pública, é necessário passar por guardas devidamente uniformizados e por detectores de metais, além de colocar a bolsa em uma esteira de raio-x.

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Foi nesta praça que, pela primeira vez, senti-me uma verdadeira estrangeira. Camponeses e pessoas de outras províncias da China me viam como uma pessoa estranha/diferente, pois eu não era asiática. Eles apontavam, olhavam de perto, riam e eu não entendia nada. Meu guia, o imigrante mongol Tony, disse que eles eram pessoas bem simples, que nunca viram estrangeiros na vida, nem mesmo na televisão. A experiência foi esquisita, mas boa, e que me fez refletir sobre as influências ocidentais no mundo, ou, pelo menos, em partes do mundo.

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Depois da visita ao Museu de História Nacional, comecei a entender o exacerbado nacionalismo chinês. A história, pelo menos no museu, é contada pela ótica chinesa comunista, que expõe claramente os heróis chineses, a influência de Marx e Engels, um grandioso Lênin, bem como os motivos de se orgulhar de um país como a República Popular da China. Lá, as chamadas “nações imperialistas” não têm vez, são más. Ver os chineses lerem todos aqueles textos com olhos atentos, concordarem e tirarem fotos com todas as estátuas do Mao foi uma experiência indescritível.

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Na mesma semana em que estive em Pequim, o Primeiro-Ministro chinês Wen Jiabao anunciou ser inevitável a China se abrir politicamente, pois a lógica do mundo estava mudando, mesmo em seu próprio país. Entretanto, algumas semanas depois, este mesmo governo prendeu a artista e ativista social Ai Weiwei.

Em relação à cena artística de Pequim, visitei o bairro chamado 798 Art Zone, que antigamente funcionava como um complexo industrial e hoje passou a abrigar diversas galerias, estúdios fotográficos e lojas artesanais. É um lugar alternativo que combina tudo o que é novo e moderno, um lugar que dita influências na moda e nas artes chinesa e mundial frequentado por pessoas cool. Por ser um lugar tão vivo, parece que Pequim respira tranquila lá, sem censura e sem vigilância.

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A China é um país gigante que acredita em seus ideais, tem enraizado em si tradições milenares e é um ator internacional forte e competitivo. É uma das maiores economias do mundo, mas, ao mesmo tempo, possui problemas de direitos humanos e meio ambiente. É um lugar onde os paradoxos vivem harmoniosamente, em um caos organizado. E Pequim é o palco político e artístico de toda a China, peças essenciais do país. Xie xie, Beijing!

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* Patricia é formada em Relações Internacionais pela Universidade Belas Artes de São Paulo. Trabalhou no Ministério das Relações Exteriores em São Paulo, no Consulado Brasileiro em Genebra, Suíça e na Missão Brasileira na ONU, também em Genebra. Atualmente é analista de tecnologia na União Internacional de Transportes Terrestres, na mesma cidade. Mora na Suíça desde 2009.  Seu e-mail é patygd@terra.com.br.

isotipo_lugares #005 // Berlim

março 14, 2011 by isotipo.labs · Leave a Comment 

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MEIN BERLIN

Texto e Imagens: Patricia Galves Derolle*

Viajar para Berlim era um sonho. Ansiava mais minha viagem para lá do que para Roma. Não sei por que dentro de mim tenho esta vontade de descobrir os mistérios da Alemanha, mas tenho. E é muito difícil escrever sobre esta cidade, pois gostaria que este texto mostrasse com humildes palavras a sensação de estar em uma grande metrópole que foi e continua sendo importante para o mundo. Enfim, como gosto muito de um desafio, vou tentar expor aqui as minhas impressões do lugar. Aproveitem a leitura.

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Berlim é mesmo tudo o que eu imaginava: uma cidade com muitas cicatrizes do passado e um ar futurístico que só ela mesma poderia ter. Ainda se ouve por lá as expressões “Berlim Oriental” e “Berlim Ocidental”, marcas deixadas por um infeliz muro construído e que nunca serão apagadas da história. Aliás, que eles preferem que não sejam mesmo apagadas, pois para eles o passado deve ser sempre lembrado a fim de que não se repita jamais os mesmos erros no futuro: nie mehr, ou nunca mais, também são palavras bem presentes no vocabulário. Admiro a mentalidade bastante distinta deste povo que encara com maturidade os problemas, possui uma vontade imensa de superar seus próprios limites e é de uma precisão invejável. Quando digo precisão, quero dizer pontualidade e organização. São claramente estereótipos, mas que decerto definem bem o alemão.

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Não tem como escrever um texto sobre Berlim e não falar da história que correu pelas veias de concreto da cidade. E ela percorre com mais intensidade em todos os prédios antigos, como o Charlottenburg Schloss, o complexo de museus – Museuminsel – e o Bundestag. Enquanto os primeiros traduzem a arquitetura mais fina e admirada da época, o último foi o símbolo da queda de Hitler, invadido e tomado pelos russos, os quais picharam todo o interior do prédio com nomes, datas e frases de liberdade. Estas marcas demonstradas pela arquitetura ou as feridas nas paredes te transportam para um passado paradoxal, no qual em uns prédios pode-se admirar toda a ascensão alemã, a literatura de Goethe e as músicas de Bach e em outros o triste e sombrio episódio da Segunda Guerra Mundial.

O muro ainda existe. Está lá, claro que em uma proporção menor, às margens do rio Spree, em frente à Estação de trem principal. Hoje ele serve de tela para obras de arte em forma de grafite. Alguns gostam, outros não. Eu acho original: em Berlim tudo é atípico, e essa street art traz um tom de revolta dos cidadãos para com os acontecimentos históricos.

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Em Berlim existem também arranha-céus, grandiosos, imponentes e modernos, bem ali na Potsdamer Platz. Lojas de departamento de todos os tipos, que oferecem algo diferente em cada andar, também são bastante presentes em todos os cantos da cidade. A KaDeWe (Kaufhaus des Westens) que é a maior e a mais famosa loja de departamento da Europa, foi construída em 1905, por Adolf Jandorf. E como tudo em Berlim sofreu na era Nacional Socialista, com a KaDeWe não foi diferente: em 1933 um grupo bancário exigiu a saída dos então donos judeus e os substituiu por pessoas da “raça ariana”; em 1943 a KaDewe foi parcialmente destruída devido à queda de um avião americano, mas, como tudo sempre acaba bem, em novembro de 1989, com a queda do muro, a loja bateu recorde em compras. Se Hitler soubesse…

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A história da KaDeWe talvez represente a trajetória de muitos berlinenses, que sofreram nas mãos de um ditador, mas que no fim superaram  todos os obstáculos. E é ótimo ver essa Berlim do futuro, recuperada, a Land der Ideen, que começou engatinhando com o estilo curioso do Bauhaus e atualmente lidera em tecnologia de ponta.  E é em Berlim onde tudo começa, essa mesma Berlim que por um lado tem cicatrizes cravadas em seu DNA e por outro é magica e que engloba tudo o que uma cidade precisa: eficiência e modernidade, com muita e muita história.

Hier, schreibe ich ein kleinen Tribut für meinen lieblings Stadt in der Welt. Ich liebe Berlin.

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* Patricia é formada em Relações Internacionais pela Universidade Belas Artes de São Paulo. Trabalhou no Ministério das Relações Exteriores em São Paulo, no Consulado Brasileiro em Genebra, Suíça e na Missão Brasileira na ONU, também em Genebra. Atualmente é analista de tecnologia na União Internacional de Transportes Terrestres, na mesma cidade. Mora na Suíça desde 2009. Seu e-mail é patygd@terra.com.br.

isotipo_lugares #003// Salvador

novembro 10, 2010 by isotipo.labs · Leave a Comment 

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A ANGOLA BRASILEIRA

Texto e Imagens: Gustavo Santos*

Salvador não é bem um lugar tão diferente assim. Na verdade é destino quase certo à turistas estrangeiros que querem conhecer – in loco - todo o calor e a alma do brasileiro e, de certa forma, o berço do Brasil como nação. Mas, para mim, Salvador sempre foi tão distante quanto o Tajiquistão, apesar de nutrir uma curiosidade antropológica e obssessiva por praticamente todas as regiões e culturas do mundo. Mas, de fato, sonhava mais em visitar o tal Tajiquistão ou qualquer outro país com o sulfixo ão em conflito permanente da Ásia Central do que passar uma temporada em Salvador. Talvez se fosse eu algum cidadão dessas terras longínquas, teria de fato algum interesse por Salvador. Mas, sendo brasileiro, esse interesse fica difícil.

Salvador sempre representou, pelo menos pela sua cultura mainstream, o oposto de tudo que acreditava. Mas, por questões profissionais, fui obrigado a ir em pleno carnaval de 2009.  O resultado é que, muito por culpa de certas, óbvias e inevitáveis belezas naturais e particularidades locais, Salvador se mostrou um pouco mais interessante do que imaginava, mas mesmo assim, não conseguiu mudar muito minha percepção.

Mas vamos ao relato.

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Salvador! Terra de todos os Santos. África brasileira. Essa foi a primeira impressão que tive ao chegar à capital baiana. Não conheço Angola muito menos sua capital Luanda, mas no meu imaginário acredito que seja algo bem próximo disso, em todos os sentidos: desde sua cultura e suas belezas até suas mazelas. Infelizmente Salvador não é uma cidade deslumbrante quanto imaginava. Ou o que me faziam imaginar, apesar do meu inseparável senso comum sempre lutar contra.

Tenho como referência de cidades litorâneas Rio de Janeiro, Lisboa, Barcelona, etc. Sempre imaginei Salvador algo como uma Rio de Janeiro envelhecida ou talvez uma Lisboa – mais pobre, claro – pela sua tradição colonial, seus morros e elevadores. Mas não. O que vi foi uma Salvador mal cuidada, quase abandonada e despreparada para receber uma quantidade colossal de turistas, sua principal fonte de renda. A Salvador que vi era feia, que não preserva sua história arquitetônica e que praticamente se vende para grandes empresas que, ao invés de investirem na conservação e melhoria urbana, patrocinam de forma estupidamente efêmera e predadora postes e orelhões em formatos de côcos, atabaques e bambus.

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Como fui à trabalho e sabia que iria ficar preso cerca de 20 horas por dia no mesmo lugar, usei o escasso tempo que tinha para tentar conhecer o mínimo da cidade e tentar tirar essa imagem estranha que tive ao chegar. Então, nada mais natural que ir conhecer o centro velho e suas peculiaridades. Num enebriante calor de quase 45 graus, me aventurei pelas estreitas avenidas da cidade em busca de um taxi. Encontrei um de um senhor simpático e falastrão, devoto de todos os santos e orixás possíveis, que, ironicamente, me levou direto ao inferno dos turistas que é o tal do centro velho.

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Assustado mas curioso, fui arrastado pela multidão em silêncio na hora do rush até o Elevador Lacerda, que é o caminho mais “fácil” para o Pelourinho. Por módicos 0,05 centavos de real você gasta 30 segundos em um elevador apertado e sem luz que parece a Estação da Sé em horário de pico e com blecaute. Ao chegar na entrada do tal do Pelouro, você é atacado por hordas e hordas de vendedores que te oferecem como brindes colares de côco e pulserinhas do Senhor do Bonfim para que, numa tentativa frustrada, você não consiga dizer não aos 40 reais que vão lhe pedir em troca de colares ditos de prata com imagens da região. Impossível dizer não. Mesmo que o não é tudo o que você mais queira dizer.

Uma curiosidade: há vários códigos locais entre os vendedores: num momento ímpar de benevolência, te avisam que se você usar a tal da pulseira do Senhor do Bonfim, nenhum outro vendedor vai pular em cima de você. É uma espécie de pulseira VIP do mercado informal, que quando você a mostra para os outros vendedores que correm para te abordar, automaticamente desistem de você ao ver seu braço com uma pulseira fucsia. Funciona bem. Devem pensar que o primeiro já lhe vendeu todo o estoque de berimbaus de marcassita do ano, e que você não é mais útil. Outro momento de extrema gentileza entre nossos amigos é que todos, sem excessão, lhe dão recomedações dizendo que é melhor não seguir por este ou aquele caminho. Impossível se sentir a vontade em uma cidade em que você é literalmente marcado através das acesas pulseirinhas do nosso Senhor do Bonfim e recomendado a não andar por esta ou aquela rua.

Já o Pelouro é, como toda cidade vista até então, muito menos que eu imaginava. Várias casinhas de um colorido triste, com igrejas em quase ruínas, com vários, vários, muitos e milhares vendedores de correntinhas de prata e afoxés em geral. Esse foi o momento que mais tive medo em minha aventura, pois quase fui “convencido” a fazer um tererê em meus poucos cabelos. O Pelourinho em si, que nada mais é um tronco onde os negros eram espancados e chicoteados, está lá. Intacto. Muito mais bem preservado do que todas as 365 igrejas da cidade (sendo que eu só vi umas 15), todas fechadas pois, afinal de contas, é carnaval. Meio que não combina.

Logo fui ao Mercado Modelo. Achei que fosse um mercado de iguarias da culinária local. Nada. Ratoeira para turista. E das fortes. Uma mega feira hippie de artesanatos duvidosos. Nada realmente novo (ou antigo), interessante e relevante. Nada da cultura local, apenas lojas de chapéus Panamás feitos no sertão da Bahia e mais afoxés. Procurei lojas de umbanda e orixás mas nem isso encontrei. Apenas algumas imagens estranhas. Acho que turistas não gostam desse sincretismo regional. Talvez esta parte não revelada seja a mais interessante de Salvador. Talvez essa Salvador esteja escondida, preservada do turistas comum, o que de fato é uma pena.

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Isso tudo foi sentido e visto em menos de 4 horas, ou seja, frequentei a superfície. Talvez Salvador seja mais que isso. Talvez não. Talvez não conheça mais que isso, afinal estava lá pelo carnaval, mas não como um folião, e sim à trabalho.

Mas foi a Salvador que vi no Carnaval que de fato me impressionou. Aquilo sim era algo que não imaginava. E meio que explicava e perdoava tudo. Para aquele formigueiro de pessoas que estavam lá pura e exclusivamente por esse evento, Salvador poderia ser como fosse, nada importava. Aqueles 7 dias eram sentidos como se fossem os últimos de suas vidas, então tudo era ao extremo: a quantidade de gente, o volume da música, os litros de bebidas, o paganismo desenfreado, o nilismo involuntário. Nada mais era importante na vida. Somente aquele momento. Mas não para mim. Mas de fato, para quem se delicia com esse universo, o carnaval é uma espécie de rendenção, uma absolvição e um desapego do bem e do mal, que parece (e deve) ser a melhor coisa do mundo. Definitivamente não era para mim. Aquilo me assustava. Mas era interessante de se ver. Até o segundo dia, apenas. O que era uma experiência absurdamente interessante de se observar, começa a te incomodar porque, além da infinita e contante música em decibéis estratosféricos, a cidade simplesmente não funciona. Ao ponto de ser impossível de sair do Hotel ou de qualquer lugar que esteja à partir das 15hs.

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Depois de uma homérica busca, finalmente consegui um taxi que estivesse disposto a me levar ao aeroporto em plena sexta-feira de carnaval, mas sem antes ser questionado e julgado impiedosamente pelo nobre motorista por cometer o crime de sair da cidade numa sexta-feira de carnaval, além de ser coagido de todas formas possíveis e imagináveis a ficar e aproveitar o melhor momento da cidade, devo admitir que uma leve tristeza caiu sobre mim, tentando entender o porque do meu pouco entusiasmo em ficar na cidade, já que algumas dezenas de milhares de pessoas se planejaram o ano inteiro para estar exatamente no local do qual estava saindo, quase que fugido. Senti que essa minha leve tristeza também ficaria na cidade pós-carnaval, onde tudo tentaria voltar ao normal após a exarcebação de um hedonismo sem precedentes. Uma certa nostalgia de uma Salvador que não vivi, mas que foi tão registrada em músicas, literatura, cinema, fotografias e gravadas no meu imaginário, me fez ser um pouco mais compreensivo e resiliente com essa cidade de extremos, que apesar de uma alegria berrante, tem uma tristeza inerente a cada rua e casa mal conservada.

Salvador fixou na minha memória tal como uma Ouro Preto descuidada, uma Lisboa africana no Brasil. Mas algo meio indescritível ficou impregnado. Uma imagem forte – não boa nem ruim – apenas forte. Tal como a passagem de um texto do abolicionista pernambucano Joaquim Nabuco, que aqui cito em um contexto completamente diferente do original, mas que tem uma poética e uma clareza que consegue descrever aquilo que não consegui entender: “… ela povoou-o como se fosse uma religião natural e viva, com os seus mitos, suas legendas, seus encantamentos; insuflou-lhe sua alma infantil, suas tristezas sem pesar, suas lágrimas sem amargor, seu silêncio sem concentração, suas alegrias sem causa, sua felicidade sem dia seguinte.”(1)

Não sei se vou conhecer algum dia outra Salvador, mas por enquanto, esta é a que ficou.

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NOTAS

(1) A citação faz parte do texto “Noites do Norte” onde Joaquim Nabuco (1849-1910), em uma assustadora contemporaneidade, atesta o inevitável destino da sociedade brasileira à escravidão: Abaixo, o trecho na íntegra:

“A escravidão permanecerá por muito tempo como a característica nacional do Brasil. Ela espalhou por nossas vastas solidões uma grande suavidade; seu contato foi a primeira forma que recebeu a natureza virgem do país, e foi a que ele guardou; ela povoou-o como se fosse uma religião natural e viva, com os seus mitos, suas legendas, seus encantamentos; insuflou-lhe sua alma infantil, suas tristezas sem pesar, suas lágrimas sem amargor, seu silêncio sem concentração, suas alegrias sem causa, sua felicidade sem dia seguinte… É ela o suspiro indefinível que exalam ao luar as nossas noites do norte.”

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* Gustavo Santos é designer com formação e especialização em Relações Internacionais pela Universidade Belas Artes de São Paulo. Desenvolve projetos de comunicação e design há 18 anos e teve seus trabalhos publicados e exibidos em festivais e mostras no Brasil, Colômbia, Estados Unidos, França, Holanda e Rússia. É editor e curador da TimeSheet Magazine, revista eletrônica voltada para a discussão e a produção de arte e design contemporâneos e deste site, isotipo.labs, centro de discussão e pesquisa sobre Nation e Place Branding, além de questões de identidade cultural e imagem nacional.  E-mail: gustavo@isotipo.com.br

isotipo_lugares #002// Joanesburgo

outubro 26, 2010 by isotipo.labs · 1 Comment 

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IMPRESSÕES DA ÁFRICA (1)

Texto e Imagens: Cláudio Santos*

Em maio de 2010, depois de 5 anos sem praticamente nos vermos ou falarmos, um antigo amigo me procura e pergunta como estava meu tempo. Exito em responder, pois há muito tempo venho tendo muito pouco tempo para cumprir todas as tarefas que eu mesmo e a própria vida me colocam. Esse telefonema acaba sendo motivo para um encontro. A conversa era sobre uma proposta de criar um espetáculo de música e imagem ao vivo, que falasse das cidades de Belo Horizonte, São Paulo e Rio de Janeiro, para um evento que aconteceria em Joanesburgo, na África do Sul, em plena copa do mundo de 2010. De início a ideia me pareceu irreal, distante e desconectada, pois teríamos aproxidamante 1 mês para desenvolver o espetáculo.

De qualquer forma, apresentamos uma proposta para a Belotur, mais com o espírito de reatar os laços de amizade e menos no fato de acreditar que isso se tornaria realidade. Passados 5 dias do envio da proposta, um SMS enviado pelo cliente confirma nossa participação no evento – Welcome on board

O que antes parecia irreal, se confirma como realidade. Começamos a produzir a viagem junto ao desenvolvimento do espetáculo. O desafio era criar uma identidade gráfica e sonora, além de uma conexão e um fio condutor entre as 3 futuras cidades sede da copa do mundo de 2014 da região sudeste brasileira. A mim cabia criar e manipular ao vivo as imagens e animações que produziríamos exclusivamente para a performance.

Os preparativos e o imaginário

Era necessário também providenciar cartão de vacina, passagens e toda burocracia necessária para uma viagem internacional. Como a viagem aconteceu após o início da copa, tínhamos poucas opções de passagens e hospedagens. Era preciso também compatibilziar os compromissos pessoais, familiares e profissionais já assumidos anteriormente. Sob essa conjunção de fatores, acabei tendo que viajar sozinho. A única opção era ir de Belo Horizonte para Lisboa, Londres e Joanesburgo. Atravessar a linha do equador em direção ao hemisfério norte e volta ao hemisfério sul até um paralelo muito próximo ao da própria Belo Horizonte.

A viagem passa a ter ares exóticos e inusitados. Aceito a condição, imaginando que estes 2 dias de viagem seriam bons para uma reflexão pessoal e uma oportunidade de conhecer mais um aeroporto, no caso, Heatrow em Londres.

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A produção do espetáculo começou a ganhar consistência a partir de um livro que havia lido há alguns anos atrás: ‘Pindorama Revisitada: Cultura e Sociedade em tempos de virada de Nicolau Sevcenko’ (2). A vaga lembrança do que tinha lido e registrado na memória, era a proposta do autor em representar a identidade brasileira através da criação de um museu de todos, onde cada cidadão levaria um objeto pessoal e o colocaria em pleno Jardim Botânico no Rio de Janeiro. Além disso, ainda me marcaram as ideias de colecionismo e da manifestação do exótico, por parte dos viajantes que vieram nos primórdios da colonização brasileira.

Nas noites mal dormidas e viradas durante a pré-podução do trabalho, recriei no meu imaginário uma África que assitia na Sessão da Tarde e a que via na série Daktari, com Land Rovers e caçadores de roupa safari na cor càqui. Me vinha na memória também os filmes de tribos africanas que faziam rituais estranhos e que sempre traziam uma atmosfera de medo e perigo. Ao mesmo tempo os notíciarios atuais mostravam um empresário brasileiro sequestrado ao pisar no aeroporto e os correspondentes esportivos da rádio CBN, falavam de uma África caótica e ao mesmo tempo desenvolvida sob a ótica do progresso em função das lojas e shoppings disponíveis para os passeios e compras.

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Primeiras impressões e a chegada em Joanesburgo

Foi com essa imagem mental que embarquei sozinho rumo ao desconhecido. Chegando em Lisboa tive a sensação de que os portugueses ainda guardam uma lembrança do Brasil como colônia. Os anúncios das revistas de bordo da TAP vendem nossas atrações turísticas como se fossem deles. Já em Londres, o aeroporto é um shopping de produtos africanos e souvenirs da copa, reforçando também a ideia de uma forte ligação de poder entre os 2 países. Chegando em Joanesburgo, o aeroporto já trazia estampada a identidade visual da copa. A Coca- Cola nos recebia com tapetes vermelhos e com os gráficos de sua campanha mundial. Nelson Mandela era um forte ícone, presente em várias imagens alusivas ao evento. O hall central do aeroporto era ponto de encontro de pessoas do mundo inteiro misturadas com taxistas que disputavam em seu dialeto, cada pessoa que chegava.

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Fiquei por mais de 1 hora esperando os colegas me buscarem no carro que alugamos. O volante do lado direito reforçava a forte influência inglesa no cotidiano dos africanos. Era muito interessante ver vários campos de golf e rugby compondo a paisagem até chegar no apartamento que alugamos. Por falta de opções de hospedagem próximas ao local do evento, nosso produtor descobriu que era muito comum alugar apartamentos mobiliados. Mesmo um pouco desconfiados conseguimos um apartamento maravilhoso, com vista para um campo de golf, a 15 minutos do centro de convenções. Fomos recebidos por um jovem Sul Africano que nos ofertou 7 garrafas de bons vinhos locais. Essa foi a primeira conexão com a gentileza e receptividade deles. Ali montamos nossa base de produção e foi onde ficamos por 3 dias imersos na finalização do espetáculo.

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Nos momentos que saíamos para comer e andar no comércio local deu para perceber uma cidade cheia de carros e de poluição. Era também ao andar pelas grandes auto-pistas que ligam distritos e regiões que percebíamos como a cidade se caracterizou para o evento. Bandeiras do mundo todo e banners com a logo da copa estava sempre presentes.

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Dos Shoppings a Soweto

Foi por nossas incursões aos shoppings em Sandton City, que percebi o poder das grandes marcas num evento deste porte. Em praticamente todos lugares a Sony estava presente anunciado um futuro em 3D. De pequenos stands, passando por vitrines de lojas, culminando no coração da cidade – Mandela Square – com o Sony Experience. Um domo que exibia imagens desta copa já gravado em 3D, tudo comandado por um programa de auditório ao vivo, com transmissão também em 3D. Além de uma grande sala de exibição onde assístiamos o futuro das imagens esportivas com óculos, num grande display de LED.

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Me interessava também aproximar mais da realidade do povo africano e do design vernacular. Resolvemos ir para Soweto, considerada uma das maiores favelas do mundo. No caminho me chamou atenção a relação deles com os cabelos, o que era demonstrado em várias pinturas na parede em frente aos diversos salões de beleza. Chegando próximo Casa de Nelson Mandela, era nítida também a semelhança com nossas periferias. Foi a primeira experiência de um contato mais direto com a história e com os Africanos. Assistimos Brasil e Portugal num tradicional buteco de Soweto.

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A Casa Brasil e o Pindorama Remix (3)

Chegou o dia da apresentação na Casa Brasil. Levamos todos os equipamentos e instrumentos até o centro de convenções de Sandton City. Este prédio era o local e encontro de todos os países. O belo projeto expográfico e cenográfico, concebido por Gringo Cardia nos colocava sob uma grande responsabilidade em apresentar a noite do Sudeste. O espetáculo ocuparia um auditório para 300 pessoas. Além disso, o Brasil estava representado em vários ambientes, onde cada cidade sede tinha seu stand específico. A cultura e a indústria podiam ser vistas ao andarmos por dentro de grandes cubos. A tecnologia brasileira estava sendo apresentada através de 14 projetos patrocinados pelo Ministério da Ciência e Tecnologia em um local específico. A diversidade brasileira era apreciada ao entramos em um túnel imersivo. O espaço de convívio era um grande bar temático, regado a Brahma e guaraná antarctica.

A equipe de montagem era toda local e muito profissional. Se comunicavam em seus dialetos. A apresentação consistia em 3 projeções simultâneas e manipuladas ao vivo, junto com a música. Aproximadamente 150 pessoas de vários lugares do mundo e muitos africanos estiveram presentes. Após o espetáculo ainda tínhamos a incubência de comandar uma festa com imagens e sons do Brasil. Deu tudo certo e nos divertimos noite adentro. Nos restava mais 2 dias na cidade e nossa ideia agora era a de cumprir o papel de turista.

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Reserva Natural e Museu do Apartheid

No dia seguinte, após a missão cumprida e mesmo com todo cansaço, resolvemos nos aventurar em um safari improvisado. Descobrimos pelos mapas uma reserva natural próxima da cidade e partimos até lá. Depois de algumas horas, começamos um passeio ao ar livre. Andamos por uma paisagem seca, com tons do verde pastel, amarelo e marrom, que me trouxeram uma breve referência com a Serra do Cipó. A savana africana lembra o cerrado brasileiro e vice-versa. Vimos alguns grupos de bichos bem ao longe. O passeio foi renovador e agora faltava apenas saber mais sobre Nelson Mandela no Museu do Aparthaid. Seguimos até lá e vivenciei uma grande experiência.

O museu é enorme e logo no início nos é proporcionado o sentimento de separação. Entramos por caminhos diferentes e voltamos a nos encontrar num longo corredor que se afunila. No interior do museu temos acesso a história do povo africano e a todo processo da colonização e dominação inglesa, até o decreto e as leis que separavam os brancos dos negros. Na sequência tive contato com todo processo de luta liderado por Mandela, com imagens fortes das manifestações e agressões. Sai de lá imaginando que o processo de qualquer transformação depende do esforço de cada um de nós.

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O retorno e o gueto africano em Lisboa

Por fim, retornei por Lisboa e acabei ficando mais 3 dias por lá. Fomos assistir mais um jogo do Brasil num bar de esquina que se chamava Maracanã. Após a vitória do Brasil, acabamos conhecendo 2 africanos que também estavam lá. Após algumas cervejas nos conectamos pelo fato deles já terem vindo uma vez ao Brasil, especificamente para um festival de Cinema em Cataguases, interior de Minas Gerais. Como participo da Fábrica do Futuro, que organiza o evento e tem sede lá, acabamos criando uma relação mais próxima e combinamos de nos encontrar para assistir o jogo de Portugal e Holanda num gueto africano frequentado por eles. No dia seguinte, no horário combinado, fomos até um universo paralelo em plena Lisboa. Uma galeria com pequenas lojas e salões de beleza, com pessoas de vários locais da África. Descemos para o sub-solo e num buteco saboreamos uma típica comida da República do Congo. Portugal perdeu o jogo e eu me despedi dessa viagem com a certeza de ter vivido uma grande aventura.

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NOTAS
(1) O título do artigo é inspirado no livro Impressões da África (1911), de Raymond Roussel, que teve grande importância na reformulação do caminho artístico de Marcel Duchamp. Conforme Rosalind Krauss, critica e historiadora de arte, o espaço literário de Impressões sobre a África é habitado por pessoas que mecanizaram a rotina de criação artística. O ponto importante é que, ao fim de seu processo de criação de obras alicerçado em mecânicas insólitas, estas máquinas terminam por produzir resultados “artísticos” inteiramente desligados do indivíduo que dá origem à arte, isto é, aquele que põe a máquina em funcionamento. Com isto, questiona-se a existência necessária de um vínculo entre o indivíduo criador e sua produção e a importância que, na civilização ocidental, possuia a marca de um ser na obra por ele produzida para que esta tivesse reconhecida sua autenticidade. As inquietações provocadas em Duchamp por este espetáculo deram-lhe muitas idéias para iniciar uma verdadeira revolução que iria abalar a tradicional conceituação do que seria uma obra de Arte. // http://contoseafinslucianesilva.blogspot.com/2010/07/impressoes-da-africa-de-raymond-roussel.html

(2) Pindorama Revisitada: Cultura e Sociedade em tempos de virada de Nicolau Sevcenko. Lançando mão de diferentes fontes e referências, o autor articula recursos da história, da cultura, do urbanismo, da literatura e das artes e mostra como o imaginário idílico assinalou de forma marcante diferentes momentos da cultura brasileira. O historiador também retoma e organiza algumas de suas importantes reflexões sobre os mistérios da paisagem brasileira, o colonialismo, a escravidão e o barroco no Brasil. A obra faz ainda um passeio por diversas cidades, cujos meandros da vida cultural são revelados por meio de histórias extraordinárias.

(3) Pindorama Remix consiste na atuação do grupo F.A.Q, que é composto por músicos e Vj’s na programação musical e visual da Casa Brasil na noite do dia 24 de junho de 2010 em Joanesburgo – África do Sul, criando, produzindo e executando uma performance multimídia, sobre as cidades de Belo Horizonte, São Paulo e Rio de Janeiro. O espaço Casa Brasil 2014, de 2.900 metros quadrados, foi montado no Centro de Convenções de Joanesburgo, África do Sul. Além da tradição no futebol, o espaço priorizou também atrativos turísticos, culturais, gastronômicos, econômicos e tecnológicos brasileiros.

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* Cláudio Santos, formado em Comunicação pela PUC MG em 1993.  É CTS  – Certified Tecnology Specialist pela Infocomm International 2008. Um dos fundadores do FAQ/feitoamaos, projeto coletivo de live images que se apresentou em performances no Brasil, França, Holanda e África do Sul. Realizou CD-roms, vídeos, instalações multimídia e interativas que foram premiadas no Brasil e no exterior. Diretor do núcleo de Mídias Interativas da Voltz. Coordenador do Núcleo Multimídia da Fábrica do Futuro – Residência Criativa do Audiovisual. Coordenador de Design do REPIA – Residência de Pesquisa Interdisciplinar Avançada, programas que integram a rede de projetos do Programa VIVOLAB e professor da Escola de Design da UEMG. claudio@voltz.com.br // www.voltz.com.br

isotipo_lugares #001 // Marrocos

outubro 19, 2010 by isotipo.labs · Leave a Comment 

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MARROCOS, O OPOSTO SUÍÇO

Texto e Imagens: Patricia Galves Derolle*

Férias! Era a hora de decidir qual o melhor destino para nossa viagem de uma semana. Ficamos em dúvida entre os roteiros (Croácia-Eslovênia-Itália): Dubrovnik-Split-Ljubljana-Veneza e (Marrocos): Casablanca-Fez-Marrakech. Como estamos na Europa, achamos melhor deixar o velho continente um pouco de lado e nos aventurarmos pelo norte da África, desconhecido por nós dois. Fiquei um pouco receosa e, ao mesmo tempo, ansiosa em sair de Genebra, onde moro atualmente. Genebra é uma cidade calma, tranquila, sem agitação e com pessoas extremamente individualistas, aqui cada um cuida do seu próprio nariz. Tenho uma teoria que diz que o lugar onde você está morando influencia muito as impressões do lugar para onde você visitará, por exemplo: se você mora em São Paulo e viaja para Madri, você não vai achar essa cidade tão legal, você vai achar legal, mas não tão legal assim. Em contrapartida, se você morasse em Moscou, onde é muito frio e a comida é bem diferente, Madri seria o paraíso gastronômico, climático, com pessoas mais alegres e onde tudo é colorido. Enfim, essa minha teoria estava prestes a se tornar realidade, pois iria sair de um país limpo e sem baratas (morro de medo deste inútil inseto) para outro que, provavelmente, seria o oposto e mais um pouco. Lemos o guia do Lonely Planet, os sites relacionados, e cada vez mais ficava ressabiada. TODOS os informativos falavam que depois de alguns dias no Marrocos, você COM CERTEZA teria problemas intestinais (para ser eufêmica). Que era para tomar cuidado porque geralmente os turistas são enganados em diversas situações. Bom, até aí, tudo bem. Somos brasileiros e, infelizmente, entendemos essa tal “malandragem”.

O dia de pegar o avião chegou. Tudo certo com a passagem, hotel e passeios intermediários. Organização é tudo nessas horas. Último voo do aeroporto de Genebra – sim, o aeroporto aqui fecha à meia-noite. É, no mínimo, engraçado ouvir que o aeroporto fecha, mas deixemos Genebra para outra vez. Todos a bordo, Marrocos nos espera! Tentativas de leitura (Triste fim de Policarpo Quaresma – nada melhor para matar a saudade do Brasil) ou de dormir, são em vão neste voo, pois já nos deparamos com um mini-Marrocos. O avião mal chega a sua altitude correta e todos já estavam de pé, conversando alto ou brigando com o “aeromoço”. Só se ouvia: Monsieur/Madame, attendez, s’il vous plaît! Entre os “espere um pouco, por favor!” um senhor saiu de seu assento para ir ao toalete, e logo veio o serviço de bordo. Quando ele voltou o carrinho atrapalhava sua passagem, mas os “aeromoços” não o deixavam passar. Para quê! Virou briga para o avião inteiro! Todo mundo discutindo, tentando achar uma solução para o problema. Era só o excelentíssimo empregado da companhia aérea afastar um pouquinho o carrinho para o senhor passar, mas não, tudo tem que ser um pouco mais complicado que isso.  Foi daí que pensamos: se é assim aqui no avião, imagina lá…

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Chegamos! Primeira vez a colocar o pé na África. Calor, muito calor, mesmo sendo tarde da noite! Táxi, cadê os táxis do Terminal II do aeroporto Mohammed V? Até que avistamos uma BMW velha, literalmente caindo os pedaços, sem taxímetro e com portas que mal fechavam.

- Quanto é a corrida até o centro, senhor? – perguntei em francês.
- 500 dirhams (em torno de 50 euros) – o taxista responde.
- Mas o nosso hotel disse que o trajeto até lá custa 200, meu senhor! – retruquei.
- Não, a senhora está enganada. Já é de noite e o preço dobra! – ele exclama.
- Mas se o valor dobra, seriam 400! Enfim, deixa para lá! Vamos pegar outro táxi. Shukran (obrigada em árabe).
- Tá, tá, tudo bem. 250 dirhams e não se fala mais nisso.

Entramos no táxi, falei para meu namorado colocar o cinto de segurança, porque vai saber né! Na tentativa de colocar, o motorista fala:

- Aqui não precisa! Nem eu uso! E esse cinto aí, ó, está emperrado!

Pegamos, portanto, o hell cab, e chegamos depois de 20 minutos no hotel. Na manhã seguinte, pegamos o trem rápido da Gare (estação de trem) Casa-Voyageurs para Fez. Paisagens lindas e desérticas e um casal marroquino ao lado que não parava de falar. Mas tudo bem, pas de problème. Deu para ler um pouco, dormir um pouco e depois de 3h30 chegamos. Negociações com os taxistas para pagar o preço mais justo e, enfim, o segundo hotel (Dar Fes Medina). Um senhor marroquino nos atendeu, nos mostrou o quarto, nos ofereceu chá de hortelã e biscoitos típicos de Fez. Ah! Agora sim! Era tudo o que nós precisávamos. Nada de barulho, apenas mosaicos lindos da Dar (casa sem jardim). Instalamo-nos e fomos passear.

Escolhemos fazer um passeio guiado, pois tínhamos pouco tempo lá. O nosso guia, que não se chamava Mohammed nem Ahmed, nos levou a um passeio pela cidade, mas fora da Medina (cidade velha cercada por muros).  Muito lindo, vistas maravilhosas: o quarteirão judeu, o Blue Gate, o Forte da parte norte. Depois do passeio, cansados, fomos para o hotel. Às 3h da manhã fomos acordados pela chamada para a reza. Às 5h da manhã também. Como ficamos praticamente dentro da Medina, a Mesquita do bairro ficava muito perto, então escutamos direitinho o chamado: ALLAHU AKBAR (Deus é grandioso!)! ALLAHU AKBAR! Seguido de trechos do Corão. É lindo, espetacular e extremamente depaysant, como se diria em francês. Só de pensar que eles realmente acordam para agradecer a Deus é algo que não tem preço.

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Já de manhã, fizemos a visita dentro da Medina, uma das maiores do Marrocos, onde tem os Souqs (mercados), as farmácias, as cooperativas de trabalho artesanal, os Museus e a Medras (escola teológica). Terminamos o passeio em um restaurante, que ficava um pouco escondido, embora tudo na Medina fique escondido. É surpreendente que becos e ruelas estreitos dão em Riads (casas grandes com jardim): são construções belíssimas, com mosaicos maravilhosos. Enfim, comemos. Não escolhi nada demais, nem quis me arriscar nos tajines ou couscous locais, pois já estava com a pulga atrás da orelha com os possíveis problemas intestinais. Comi um filé de frango com salada marroquina (porções de legumes variados, como berinjela, abobrinha, batata, cenoura, etc. com os temperos deles, claro!). Estava maravilhoso, uma delícia. Doce ilusão… Fizemos o check-out do hotel, corremos para a Gare e voltamos para Casablanca, onde ficaríamos dois dias. No caminho, que dor de estômago! A dor não passava, o trem balançava e tudo me irritava. Ao descer do trem, mais negociações com os taxistas e, de novo, em Casablanca. Passei muito mal à noite e fiquei um dia de molho no hotel. Tomei muito cuidado com comida e água, mas não deu muito certo. Dei sorte em ter passado mal em Casablanca, pois entre as cidades que visitamos é a que tem menos pontos turísticos. No outro dia, estava um pouco melhor. Fomos visitar a 3ª maior mesquita do mundo: a mesquita Hassan II. Gigante, linda, espetacular! Pagamos alguns dirhams, tiramos nossos sapatos e voilà: ! Mármore, vidro murano, portas de titânio e cedro marroquino em diversos lugares da mesquita.

Ansiosíssima para ir a Marrakech, logo depois da visita pegamos o trem para lá. Atraso de 1h25 do trem e quando o mesmo chegou não tinha lugar para se sentar. Conclusão: viajar em pé! Demos sorte que depois de 15 minutos duas pessoas, uma de frente para outra (!), na JANELINHA (!!), saíram e deram lugar para nós. Ar condicionado? Respondo com uma gargalhada e um NÃO! Calor de 36 graus e um ventinho que saía de alguma janela perdida no vagão. Sauna no trem! Pessoas pingando de calor e as mulheres marroquinas vestidas do pé a cabeça, só com seus olhos mostrando. Melhor ler para passar o tempo.

Em Marrakech, depois de 4h, mais calor do que nas outras cidades, devido ao fato de estar mais perto do deserto. Negociação, táxi, hotel, chá de hortelã. Deixamos as bagagens e fomos direto para a atração principal: Place Djama el Fna. Meu lugar favorito do Marrocos até agora! Lá é diferente de todos os lugares que já visitei. O encantador de serpentes com sua flauta, o homem com o macaco no pescoço, as tatuadoras de hena, o cheiro de suco de laranja espremido na hora. É uma mélange de sons, cores e acho que de sabores. Não aguentei e deixei cair uma lágrima dos meus olhos. Isso é a África, isso é o Marrocos e eu estou aqui! Parece que estava em um filme (queria dizer Tintin, meu BD favorito, mas ele nunca foi para o Marrocos), mas enfim, em alguma aventura por esse mundo. Todos os inconvenientes da viagem sumiram bem ali. A Praça é agitada, cheia de gente, motos passando pelas calçadas – ou seja, o oposto da Suíça. É uma “Rambla” de Barcelona, só que na África.

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Visitamos a cidade sozinhos. Quando nos perdíamos nas ruelas da Medina sempre tinha um menininho que te guiava até onde você gostaria de ir, claro, em troca de alguns dirhams, afinal para eles isso é business:

- Are you lost? I guide you!
- You americans? – No!
- Français? – Non!
- España? – No!
- Belgique? – Non!
- Deutsch? – Nein !
- What are you then? – Brazilians!
- Oh! A friend country. We love football. Pelé, the best !
- This way, this way. Now, you give me money.

Era o jeito. Não existe, pelo menos que eu saiba, um mapa que cobrisse todas as áreas da Medina. Depois de 3 dias neste lugar “incroyable”, sem comer comida marroquina e depois de algumas compras temos que voltar para Casablanca e pegar o voo de volta para a Suíça. Estávamos um pouco cansados de tanta negociação, tumulto e perguntas. A Suíça nos chamava. O voo com o mesmo cenário mini-Marrocos da ida e uma menininha hiperativa que não parava de chorar ao nosso lado se repetia.

Agora, a pergunta que fica: voltaria para o Marrocos? SIM! Mas só para Marrakech, ensha’allah!

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* Patricia é formada em Relações Internacionais pela Universidade Belas Artes de São Paulo. Trabalhou no Ministério das Relações Exteriores em São Paulo, no Consulado Brasileiro em Genebra, Suíça e na Missão Brasileira na ONU, também em Genebra. Atualmente é analista de tecnologia na União Internacional de Transportes Terrestres, na mesma cidade. Mora na Suíça desde 2009. Seu e-mail é patygd@terra.com.br.