isotipo_lugares #001 // Marrocos
outubro 19, 2010 by isotipo.labs · Leave a Comment

MARROCOS, O OPOSTO SUÍÇO
Texto e Imagens: Patricia Galves Derolle*
Férias! Era a hora de decidir qual o melhor destino para nossa viagem de uma semana. Ficamos em dúvida entre os roteiros (Croácia-Eslovênia-Itália): Dubrovnik-Split-Ljubljana-Veneza e (Marrocos): Casablanca-Fez-Marrakech. Como estamos na Europa, achamos melhor deixar o velho continente um pouco de lado e nos aventurarmos pelo norte da África, desconhecido por nós dois. Fiquei um pouco receosa e, ao mesmo tempo, ansiosa em sair de Genebra, onde moro atualmente. Genebra é uma cidade calma, tranquila, sem agitação e com pessoas extremamente individualistas, aqui cada um cuida do seu próprio nariz. Tenho uma teoria que diz que o lugar onde você está morando influencia muito as impressões do lugar para onde você visitará, por exemplo: se você mora em São Paulo e viaja para Madri, você não vai achar essa cidade tão legal, você vai achar legal, mas não tão legal assim. Em contrapartida, se você morasse em Moscou, onde é muito frio e a comida é bem diferente, Madri seria o paraíso gastronômico, climático, com pessoas mais alegres e onde tudo é colorido. Enfim, essa minha teoria estava prestes a se tornar realidade, pois iria sair de um país limpo e sem baratas (morro de medo deste inútil inseto) para outro que, provavelmente, seria o oposto e mais um pouco. Lemos o guia do Lonely Planet, os sites relacionados, e cada vez mais ficava ressabiada. TODOS os informativos falavam que depois de alguns dias no Marrocos, você COM CERTEZA teria problemas intestinais (para ser eufêmica). Que era para tomar cuidado porque geralmente os turistas são enganados em diversas situações. Bom, até aí, tudo bem. Somos brasileiros e, infelizmente, entendemos essa tal “malandragem”.
O dia de pegar o avião chegou. Tudo certo com a passagem, hotel e passeios intermediários. Organização é tudo nessas horas. Último voo do aeroporto de Genebra – sim, o aeroporto aqui fecha à meia-noite. É, no mínimo, engraçado ouvir que o aeroporto fecha, mas deixemos Genebra para outra vez. Todos a bordo, Marrocos nos espera! Tentativas de leitura (Triste fim de Policarpo Quaresma – nada melhor para matar a saudade do Brasil) ou de dormir, são em vão neste voo, pois já nos deparamos com um mini-Marrocos. O avião mal chega a sua altitude correta e todos já estavam de pé, conversando alto ou brigando com o “aeromoço”. Só se ouvia: Monsieur/Madame, attendez, s’il vous plaît! Entre os “espere um pouco, por favor!” um senhor saiu de seu assento para ir ao toalete, e logo veio o serviço de bordo. Quando ele voltou o carrinho atrapalhava sua passagem, mas os “aeromoços” não o deixavam passar. Para quê! Virou briga para o avião inteiro! Todo mundo discutindo, tentando achar uma solução para o problema. Era só o excelentíssimo empregado da companhia aérea afastar um pouquinho o carrinho para o senhor passar, mas não, tudo tem que ser um pouco mais complicado que isso. Foi daí que pensamos: se é assim aqui no avião, imagina lá…

Chegamos! Primeira vez a colocar o pé na África. Calor, muito calor, mesmo sendo tarde da noite! Táxi, cadê os táxis do Terminal II do aeroporto Mohammed V? Até que avistamos uma BMW velha, literalmente caindo os pedaços, sem taxímetro e com portas que mal fechavam.
- Quanto é a corrida até o centro, senhor? – perguntei em francês.
- 500 dirhams (em torno de 50 euros) – o taxista responde.
- Mas o nosso hotel disse que o trajeto até lá custa 200, meu senhor! – retruquei.
- Não, a senhora está enganada. Já é de noite e o preço dobra! – ele exclama.
- Mas se o valor dobra, seriam 400! Enfim, deixa para lá! Vamos pegar outro táxi. Shukran (obrigada em árabe).
- Tá, tá, tudo bem. 250 dirhams e não se fala mais nisso.
Entramos no táxi, falei para meu namorado colocar o cinto de segurança, porque vai saber né! Na tentativa de colocar, o motorista fala:
- Aqui não precisa! Nem eu uso! E esse cinto aí, ó, está emperrado!
Pegamos, portanto, o hell cab, e chegamos depois de 20 minutos no hotel. Na manhã seguinte, pegamos o trem rápido da Gare (estação de trem) Casa-Voyageurs para Fez. Paisagens lindas e desérticas e um casal marroquino ao lado que não parava de falar. Mas tudo bem, pas de problème. Deu para ler um pouco, dormir um pouco e depois de 3h30 chegamos. Negociações com os taxistas para pagar o preço mais justo e, enfim, o segundo hotel (Dar Fes Medina). Um senhor marroquino nos atendeu, nos mostrou o quarto, nos ofereceu chá de hortelã e biscoitos típicos de Fez. Ah! Agora sim! Era tudo o que nós precisávamos. Nada de barulho, apenas mosaicos lindos da Dar (casa sem jardim). Instalamo-nos e fomos passear.
Escolhemos fazer um passeio guiado, pois tínhamos pouco tempo lá. O nosso guia, que não se chamava Mohammed nem Ahmed, nos levou a um passeio pela cidade, mas fora da Medina (cidade velha cercada por muros). Muito lindo, vistas maravilhosas: o quarteirão judeu, o Blue Gate, o Forte da parte norte. Depois do passeio, cansados, fomos para o hotel. Às 3h da manhã fomos acordados pela chamada para a reza. Às 5h da manhã também. Como ficamos praticamente dentro da Medina, a Mesquita do bairro ficava muito perto, então escutamos direitinho o chamado: ALLAHU AKBAR (Deus é grandioso!)! ALLAHU AKBAR! Seguido de trechos do Corão. É lindo, espetacular e extremamente depaysant, como se diria em francês. Só de pensar que eles realmente acordam para agradecer a Deus é algo que não tem preço.

Já de manhã, fizemos a visita dentro da Medina, uma das maiores do Marrocos, onde tem os Souqs (mercados), as farmácias, as cooperativas de trabalho artesanal, os Museus e a Medras (escola teológica). Terminamos o passeio em um restaurante, que ficava um pouco escondido, embora tudo na Medina fique escondido. É surpreendente que becos e ruelas estreitos dão em Riads (casas grandes com jardim): são construções belíssimas, com mosaicos maravilhosos. Enfim, comemos. Não escolhi nada demais, nem quis me arriscar nos tajines ou couscous locais, pois já estava com a pulga atrás da orelha com os possíveis problemas intestinais. Comi um filé de frango com salada marroquina (porções de legumes variados, como berinjela, abobrinha, batata, cenoura, etc. com os temperos deles, claro!). Estava maravilhoso, uma delícia. Doce ilusão… Fizemos o check-out do hotel, corremos para a Gare e voltamos para Casablanca, onde ficaríamos dois dias. No caminho, que dor de estômago! A dor não passava, o trem balançava e tudo me irritava. Ao descer do trem, mais negociações com os taxistas e, de novo, em Casablanca. Passei muito mal à noite e fiquei um dia de molho no hotel. Tomei muito cuidado com comida e água, mas não deu muito certo. Dei sorte em ter passado mal em Casablanca, pois entre as cidades que visitamos é a que tem menos pontos turísticos. No outro dia, estava um pouco melhor. Fomos visitar a 3ª maior mesquita do mundo: a mesquita Hassan II. Gigante, linda, espetacular! Pagamos alguns dirhams, tiramos nossos sapatos e voilà: ! Mármore, vidro murano, portas de titânio e cedro marroquino em diversos lugares da mesquita.
Ansiosíssima para ir a Marrakech, logo depois da visita pegamos o trem para lá. Atraso de 1h25 do trem e quando o mesmo chegou não tinha lugar para se sentar. Conclusão: viajar em pé! Demos sorte que depois de 15 minutos duas pessoas, uma de frente para outra (!), na JANELINHA (!!), saíram e deram lugar para nós. Ar condicionado? Respondo com uma gargalhada e um NÃO! Calor de 36 graus e um ventinho que saía de alguma janela perdida no vagão. Sauna no trem! Pessoas pingando de calor e as mulheres marroquinas vestidas do pé a cabeça, só com seus olhos mostrando. Melhor ler para passar o tempo.
Em Marrakech, depois de 4h, mais calor do que nas outras cidades, devido ao fato de estar mais perto do deserto. Negociação, táxi, hotel, chá de hortelã. Deixamos as bagagens e fomos direto para a atração principal: Place Djama el Fna. Meu lugar favorito do Marrocos até agora! Lá é diferente de todos os lugares que já visitei. O encantador de serpentes com sua flauta, o homem com o macaco no pescoço, as tatuadoras de hena, o cheiro de suco de laranja espremido na hora. É uma mélange de sons, cores e acho que de sabores. Não aguentei e deixei cair uma lágrima dos meus olhos. Isso é a África, isso é o Marrocos e eu estou aqui! Parece que estava em um filme (queria dizer Tintin, meu BD favorito, mas ele nunca foi para o Marrocos), mas enfim, em alguma aventura por esse mundo. Todos os inconvenientes da viagem sumiram bem ali. A Praça é agitada, cheia de gente, motos passando pelas calçadas – ou seja, o oposto da Suíça. É uma “Rambla” de Barcelona, só que na África.

Visitamos a cidade sozinhos. Quando nos perdíamos nas ruelas da Medina sempre tinha um menininho que te guiava até onde você gostaria de ir, claro, em troca de alguns dirhams, afinal para eles isso é business:
- Are you lost? I guide you!
- You americans? – No!
- Français? – Non!
- España? – No!
- Belgique? – Non!
- Deutsch? – Nein !
- What are you then? – Brazilians!
- Oh! A friend country. We love football. Pelé, the best !
- This way, this way. Now, you give me money.
Era o jeito. Não existe, pelo menos que eu saiba, um mapa que cobrisse todas as áreas da Medina. Depois de 3 dias neste lugar “incroyable”, sem comer comida marroquina e depois de algumas compras temos que voltar para Casablanca e pegar o voo de volta para a Suíça. Estávamos um pouco cansados de tanta negociação, tumulto e perguntas. A Suíça nos chamava. O voo com o mesmo cenário mini-Marrocos da ida e uma menininha hiperativa que não parava de chorar ao nosso lado se repetia.
Agora, a pergunta que fica: voltaria para o Marrocos? SIM! Mas só para Marrakech, ensha’allah!
- – - -
* Patricia é formada em Relações Internacionais pela Universidade Belas Artes de São Paulo. Trabalhou no Ministério das Relações Exteriores em São Paulo, no Consulado Brasileiro em Genebra, Suíça e na Missão Brasileira na ONU, também em Genebra. Atualmente é analista de tecnologia na União Internacional de Transportes Terrestres, na mesma cidade. Mora na Suíça desde 2009. Seu e-mail é patygd@terra.com.br.
